A revisão de Chernobyl

Mais que o acidente nuclear, Sábado Inocente é sobre pessoas, diz o diretor

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2011 | 03h08

Por mais de 30 anos, Alexander Mindadze foi roteirista para o diretor Vadim Abdrashitov. Fizeram 11 filmes, entre eles A Pray for a Passenger, que ganhou o Urso de Prata de roteiro em 1995. Mindadze voltou este ano à Berlinale com seu segundo longa como diretor. Sábado Inocente passa-se num único dia. O que ocorreu em 26 de abril de 1986, em Chernobyl, virou tabu na antiga URSS, que tentou minimizar os efeitos da radiação nuclear provocada pelo vazamento no reator da usina. Hoje, sabe-se que morreu muito mais gente e os danos foram maiores do que os anunciados há 25 anos. Para Mindadze, seu filme não é sobre o acidente nuclear. É sobre a luta de um homem contra forças - o sistema, a tecnologia - que o esmagam.

Se fosse sobre o acidente nuclear, Mindadze poderia ter feito um documentário. Ele nem cogitou da possibilidade. Logo no começo, o protagonista - um improvável dublê de músico e burocrata do partido - tenta alertar as autoridades, mas se choca com a intransigência dos superiores. Ele resolve fugir. A namorada não encontra o passaporte. Quando correm para pegar o trem - o último trem de Chernobyl -, ela quebra o salto, como Catherine Deneuve em Indochina, de Régis Wargnier. Mindadze nem se lembrava do detalhe. Mera coincidência, ele garantiu ao repórter, em Berlim.

"Precisava retardar Valerij (o protagonista) e foi o detalhe realista que me veio. Interesso-me basicamente por pessoas. O eterno drama humano. O comunismo foi-se, mas as dificuldades de viver continuam imensas na Rússia." O filme sobre Chernobyl era um desejo antigo, ele revela. "O reator de Chernobyl era novo, as chances matemáticas de um acidente eram insignificantes, cerca de 0,0000001%. Isso é nada, mas ocorreu." Mindadze filmou numa pequena cidade da Ucrânia, que tem um reator idêntico ao de Chernobyl. Os efeitos - a rachadura e a cortina de chamas e de fumaça - foram feitos na Alemanha, por computador. Mindadze agradece ao produtor Alexander Rodnyansky por haver contratado um grande diretor de fotografia, o romeno Oleg Mutu, de A Morte do Senhor Lazrescu e Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias. "Este encontro do novo cinema romeno com o russo é o grande acontecimento de Sábado Inocente", reconhece.

Há uma longa cena de câmera na mão, quando Mutu se movimenta no estrado em que Valerij toca com sua banda numa festa. A cena é essencial na arquitetura dramática de Sábado Inocente. A banda rachou no passado, quando o rock era sinônimo de decadência burguesa. Explodem velhos ressentimentos. Os convidados bebem até cair. A música é barulhenta. Lá fora, o mundo está acabando. A alienação é total. "A cena parecia bem escrita, mas não creio que tivesse funcionado sem a mão de ferro de Mutu. O plano-sequência foi desenhado no set. Chegamos à conclusão de que seria mais forte, ao invés dos cortes, tipo MTV, associados à linguagem do rock", disse o diretor.

Para ele, a Rússia atual assemelha-se a um vasto cemitério, e por isso a metáfora de Chernobyl lhe pareceu atraente como tema contemporâneo. "O conceito é a civilização industrial global contra o homem insignificante. Como nas tragédias gregas, o destino nos ultrapassa. É uma tragédia russa? Por certo, mas é também uma tragédia global." Mindadze foi profético. Fez a afirmação dias antes que o tsunami no Japão provocasse o acidente nuclear de Fukushima. Seu filme incita à reflexão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.