A revelação de um amigo de Chopin

Charles Valentin-Alkan conviveu com o músico, herdou seus alunos e agora sai do anonimato em bela gravação

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2013 | 02h12

Você é um entre milhões de pessoas no mundo inteiro que adoram Chopin? Então tenho novidades - e das boas. Que tal conhecer um compositor que tem enormes afinidades com o célebre polonês inventor do piano moderno, foi seu amigo em Paris e herdou até seus alunos quando Chopin morreu, em 1849? Charles-Valentin Alkan era arredio como o polonês. Curtiu uma longa vida, nasceu em 1813 e morreu em 1888, portanto deveria ter seu bicentenário de nascimento comemorado. Mas, sabem como é, teve o azar de nascer no mesmo ano de Giuseppe Verdi e Richard Wagner. Morreu de maneira estúpida - uma estante caiu sobre ele quando quis alcançar um livro em sua biblioteca - e é só por este detalhe bizarro que seu nome é modernamente lembrado.

Ferruccio Busoni o colocava em pé de igualdade com Chopin, Liszt, Schumann e Brahms ("É um dos cinco maiores compositores para piano desde Beethoven"). O britânico Ronald Smith foi seu primeiro grande divulgador moderno: gravou boa parte de sua obra e escreveu um livro. Mais perto de nós, Marc-André Hamelin gravou-o extensivamente, assim como Steven Osborne (ambos para o selo Hyperion).

O CD Recueil de Chants, da pianista australiana Stephanie McCallum, recém-lançado pela Toccata Classics, é raro tributo ao seu bicentenário, pois traz as primeiras três de cinco coletâneas de canções. O modelo formal é o das canções sem palavras de Mendelssohn. Na década de 1850, consolidava-se o boom da indústria de pianos de armário na Europa, o instrumento era veículo de diversão da classe média.

Compostos em 1857, foram uma espécie de renascimento do compositor, que logo após a morte de Chopin, em 1849, isolou-se. Stephanie toca com leveza, graça e boa técnica as três primeiras, com seis peças cada. Possuem extrema sofisticação de escrita pianística e notável musicalidade. Desde Assez Vivement, a peça que abre o CD, percebe-se um pianismo romântico de primeira. Da Barcarolle, que conclui a primeira série, à Barcarolle Assez Lentement que fecha a terceira, há gemas como um delicioso Choeur Allegro em vivíssimos acordes; um singelo Chant de Guerre Allegro; e dois superdesafios técnicos: Esprits Follets Prestíssimo e Horace et Lydie Vivacissimo. O bônus, mais longa peça do CD, é uma primeira gravação mundial: Fusée - Introduction et Impromptu, de 1859. O título refere-se a fiação, ou roca, como no poema famoso de Goethe que virou um lied ainda mais famoso com música assinada por Schubert.

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