A revanche de Odair

Ele já foi vaiado pelo público, ignorado pela mídia e, dizem, excomungadopela Igreja. Eis que, de repente, todos querem Odair José

EMANUEL BOMFIM, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2012 | 03h06

Na mesma semana em que o Instagram deixou o 'condomínio de luxo', Odair José volta à cena. A relação parece um tanto absurda, mas não é. Cutucar preconceitos, tais como o que envolveu a chegada do aplicativo para as classes mais baixas, foi a bandeira do ícone popular, como bem exemplificam suas saborosas crônicas de amor sobre empregadas e prostitutas, todas de rápida difusão e sucesso retumbante. O olhar realista, o discurso direto, não são fruto de tese apurada nas salas de Ciências Sociais. Como um mero observador, Odair canta o que vê ao seu redor, extravasa o sentimento do "povão" e não tem receio de desafiar tabus.

O mais recente deles diz respeito ao próprio reconhecimento de sua obra. Afastado do panteão da MPB por décadas, o tímido cantor goiano, herói do rádio AM, conseguiu romper a fronteira do cafona para virar símbolo cult. Dois shows que fará com o Mombojó hoje e amanhã, no Sesc Pompeia, são sintomas dessa virada (mais na página 3).

Tudo começou com o livro Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo Cesar de Araújo, e ganhou força com o tributo promovido por artistas da nova geração, de Pato Fu a Los Pirata. "Eu era distante daquilo que tinha feito. Não via meu trabalho com os olhos que vejo agora", avalia. Aos 63 anos, carrega a mesma feição e olhar melancólico de quando era jovem e disputava as paradas com Roberto Carlos.

A pretensão de desbancar o Rei pouco lhe diz hoje, mas retribuir o carinho de uma nova legião de fãs surge como válvula para um músico ainda cheio de ideias e versos prontos para arrebatar corações. Quase dois anos após maturar novas composições ao lado de Zeca Baleiro, um dos principais defensores da turma do brega, Odair lança pela Saravá Discos (selo de Baleiro) seu mais novo álbum de estúdio, Praça Tiradentes. O título, de teor autobiográfico, faz referência ao primeiro local em que o cantor morou no Rio, quando não era ninguém, se apresentava na noite e não tinha teto para dormir.

Graças ao sucesso de Eu Vou Tirar Você Desse Lugar, Odair logo mudou de vida e virou ídolo das multidões, pronto para desfilar seu arsenal de hits instantâneos, curtidos na prosa popular e fisgados por dores de amor das mais cafajestes. Enquanto Roberto Carlos pregava o namorinho de portão, ele cantava o amor de adulto: "A gente ama até demais/e quando tem um grande amor/a gente faz em qualquer lugar", diz a letra de Em Qualquer Lugar. Em 1973, antes de ser aprisionado na cela do brega, fez uma apresentação histórica ao lado de Caetano Veloso no festival Phono 73, motivo de vaias e aplausos. "Foi muito legal, eu só lamento não ter tido capacidade de curtir aquele momento."

Em seu novo trabalho, foi diferente. Aproveitou cada momento de estúdio. Fez sem pressa, sem prazo definido, queria resgatar o melhor de sua obra. "Gosto da verdade que Odair transmite. É um poeta popular e um melodista inspirado", elogia Zeca Baleiro, o produtor da empreitada. "Ele e a minha banda talharam a sonoridade do disco. Eu apenas coordenei o trabalho e pus alguns temperos, como violino, gaita e trombone", diz o músico. Além do próprio Zeca, Praça Tiradentes tem músicas de Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, Chico César e a participação de Paulo Miklos. "O melhor deste disco é que lembra Odair José", brinca o próprio Odair.

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