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A retranqueta

A mentira é um mal necessário, sem ela nossa vida social seria impossível e muitos casamentos não resistiriam a duas semanas

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2019 | 02h00

A mentira é um mal necessário. Sem a mentira nossa vida social seria impossível. Sem a mentira, muitos casamentos não resistiriam a duas semanas.

Não estou falando da falsa bajulação e das falsas juras, das declarações insinceras que os casais trocam para se agradar mutuamente, do orgasmo fingido ou das repetidas promessas de não molhar mais o banheiro como um urso depois do banho. Me refiro às pequenas mentiras que mantêm um relacionamento estável, mesmo que dependam de algum autocontrole da parte da mulher, para não rir ou ficar fazendo cara de “conta outra”, enquanto a mentira dele fica cada vez mais improvável. Pois ele pode estar mentindo para o seu bem e o bem do seu casamento. Por exemplo.

Se o homem diz que deve ser algum problema com a retranqueta do polidor, quando não tem a menor ideia do que há de errado com o carro, não é para proteger o orgulho dele. Está mentindo para a tranquilidade dela. Para que ela não saiba que está vivendo com alguém que não tem bem certeza nem onde fica o motor do carro quanto mais qual é o seu problema. Você se sentiria segura sabendo que, no caso de o carro enguiçar, no meio da noite, perto do Morro das Metralhadoras de Uso Exclusivo das Forças Armadas, a única providência técnica que ele poderia tomar seria trancar as portas por dentro? Está certo, não existe o polidor e muito menos a sua retranqueta – até onde eu sei – mas o importante é você pensar que o polidor existe, e que ele sabe exatamente onde fica e o que precisa ser feito para consertá-lo, além de gritar por socorro. 

– É só dar um repique na retranqueta e equalizar o polidor.

Mulher, mulher. Acima de tudo, não se meta. Se no dia seguinte ele deixar o carro em casa, alegando que não quer forçar a retranqueta para não anodizar o parkerson, em hipótese alguma receba-o em casa na volta do trabalho com a notícia de que você levou o carro na oficina por sua conta.

– O quê?! E o que você disse que era?

– O que você falou. A retranqueta do polidor.

Pronto. Ele nunca mais vai poder olhar o mecânico na cara. A esta altura, toda a oficina já sabe que ele provavelmente pensa que “afogador” é um assassino de praia. Ele está arrasado. Você o destruiu. A não ser que...

– E o que foi que o mecânico disse?

– Que ia dar um repique na retranqueta e equalizar o polidor.

O casamento está salvo – por uma mentira. Ele não precisa se preocupar em ser desmascarado.

Agora, só precisa se preocupar com o mecânico, que obviamente sabe menos do que ele.

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