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A ressurreição dos vivos

Não custa imaginar o dia, distante ainda, em que vamos – aos poucos – sair da toca

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 03h00

Se bem entendi, o que nem sempre acontece, não haverá para nós, reclusos, uma data e hora para finalmente sairmos todos da toca. Não haverá um unânime liberou-geral. Segundo estou informado, vamos vazar aos poucos, em momentos ainda incertos, e no maior cuidado. Nada de sair por aí aspergindo perdigotos sobre nosso semelhante, qual ignaros bolsonaros. Mil cautelas, para que não volte o bicho responsável por essa pandemia – e aqui me refiro à covid-19, não à covid-17, pandemônio na contramão da ciência, do bom senso e até das boas maneiras. Para debelar esta praga, contra a qual não existe cloroquina alguma, com certeza vamos precisar de algo mais que panelaços.

É pena que não vá haver, após tantas semanas de sacrifício e tédio, o sonhado liberou-geral. Seria, imagino, algo nos moldes da anunciada Ressurreição dos Mortos, com a diferença de que não assinalaria o final dos tempos. Uma ressurreição dos vivos, digamos. A outra, a dos mortos, segue me assombrando desde a longínqua infância; não importa que seja hoje um senhor incréu: o assombro é o mesmo. Sigo repetindo, inclusive por escrito, que adoraria poder assistir, de preferência vivo, à tal Ressurreição dos Mortos. 

Esta, com certeza, mereceria ser chamada, mais do que o famoso filme, de O Maior Espetáculo da Terra. O maior espetáculo jamais visto – e estará bem à mão para quem, como este cronista, tem nas proximidades de casa dois grandes e bem habitados cemitérios da capital paulista, o do Araçá e o da Consolação, alcançáveis, um e outro, numa prazerosa caminhada através do Pacaembu e da Consolação. Confesso que às vezes gosto de passear por eles, sem defunto específico para visitar. Recomendo. É reconfortante, ao entrar num cemitério, a certeza de que lá não se vai ficar, ao menos por enquanto.

Você tem o direito de achar que é conversa de mau gosto, e até eu concordo, mas haverá de concordar com o fato de que o acontecimento, a esperada Ressurreição dos Mortos, não será menos que sensacional. Sim, sensacional, com hifens separando as sílabas. Pense em toda aquela gente emergindo das covas com suas roupas de época – pois nem me passa pela cabeça a hipótese de que vamos voltar ao mundo, no Juízo Final, com o mesmo guarda-roupa, inexistente, com que chegamos a ele. 

Situações curiosas haverão de se produzir, e não só nos cemitérios, pois nos lugares mais inesperados, até mesmo em residências de família, montinhos de cinzas funerárias ganharão de novo as formas de quem foi cremado. 

No cemitério de Montparnasse, em Paris, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que jamais viveram sob o mesmo teto, poderão dizer o que acharam da coabitação em tumba conjugal. E em toda parte miríades de cônjuges retomariam as rusgas e implicâncias que os mantinham juntos, interrompidas apenas porque a morte os separou. 

De um mesmo túmulo poderá saltar, lépido, um rapaz de 30 anos, e também, com arrastada dificuldade, um ancião que se foi na casa dos 90 – sendo que o velho vem a ser neto do moço, falecido jovem. E imagine a situação em que se verá metido o poeta Vinicius de Moraes, ao se deparar, no cemitério carioca de São João Batista, com todas as nove esposas que seu poder de sedução amealhou.

Na mesma necrópole, como antigamente diziam os jornais, veríamos Alberto Santos Dumont decolar da cova na qual fez seu derradeiro pouso – com o risco de não ser imediatamente reconhecido, pois pela primeira vez estaria sem aquele chapéu de asas desabadas com que parece ter nascido. Também no São João Batista, recém-saídos do mausoléu da Academia Brasileira de Letras, dezenas de escribas, engessados em seus fardões, seriam, agora sim, imortais.

Na Consolação, Mário de Andrade talvez aceitasse finalmente apertar a mão gorducha de Oswald de Andrade, com o qual rompeu em 1929, sete anos depois de haverem os dois capitaneado a Semana de Arte Moderna. Não longe dali, encantador de tantas gerações de meninas e meninos, e até de adultos, Monteiro Lobato não surpreenderá ninguém se ressurgir reclamando da censura a que o condenou o pessoal do politicamente correto: ridícula, protestará o criador do Sítio do Picapau Amarelo, juntando ainda mais as fartas sobrancelhas, essa conversa de chamar a tia Anastácia de afrodescendente! 

Em dois cemitérios, por fim, um em Belo Horizonte, outro no Rio de Janeiro, brotarão de seus jazigos dois ex-defuntos de nome Humberto Werneck – nenhum deles parente ou conhecido de seu xará cronista. Mas chega desta história, já exumada e posta por escrito em demasiadas ocasiões. Paz aos vivos. Chega, também, de papo funerário, que nem mesmo na falta de assunto de uma quarentena se há de tolerar. 

*

Fiquemos com o alegre espetáculo – improvável, repito, segundo as autoridades sanitárias – daquilo que estou chamando de ressurreição dos vivos. Finalmente liberadas, multidões de walking deads que jamais morreram entupiriam barbearias e salões de cabeleireiro, no afã de se tornarem outra vez visualmente apresentáveis. O mesmo se daria em consultórios de nutricionistas e no setor de alimentos light dos supermercados, pois por pouco não se converteu em realidade aquilo que um bem-humorado espírito de porco imaginou num meme: gente que a comedoria da quarentena inflou de tal maneira que a porta da rua se tornou passagem por demais estreita. Pés acostumados a chinelos, ou a calçado algum, vão estranhar os sapatos de sempre – assim como pernas se enfurnarão pouco à vontade nas calças, após semanas e semanas de bermudas.

Nas geladeiras, provisões alimentícias de guerra teriam motivos para se sentir enciumadas, preteridas que foram pela boia fumegante do menos estrelado dos restaurantes. Milhões de comensais, aliás, redescobrirão a maravilha que pode ser um prato até medíocre, mas preparado por mãos que não as suas. E quem não se alegrará quando, encerrada a temporada de home office, de “home” isso e aquilo, com ela passará também a, vá o neologismo, “homessexualidade” à qual no momento estamos todos confinados, não importando a orientação libidinal de cada um? 

Não é impossível, por fim, que, passada a lua de mel com a recuperada liberdade de ir e vir, alguns de nós experimentem sentimento imprevisto, aparentado, quem sabe, com a síndrome de Estocolmo, aquela que faz o agredido amar o agressor: a constrangedora sensação de que, pensando bem, o convívio social de certo modo era melhor que o presencial – era mais afetuoso, mas sem muito agarramento, no período em que estivemos privados de abraços e de beijos. Tempo bom aquele, haverá quem ouse admitir em voz alta, em que a gente se via o tempo todo, mas exclusivamente na tela do celular ou do computador!

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