A resolução de James Murphy

Losing My Edge, a faixa que colocou James Murphy no mapa, dez anos atrás, canta o entardecer de um musicófilo descolado, na aurora do download. Em sete minutos de citações de bandas e discos outrora obscuros, que na época tornavam-se disponíveis com um clique de mouse, Murphy e seu LCD Soundsystem destilam os tons de autoanálise dançante que os colocariam entre as bandas mais emblemáticas de sua geração.

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2012 | 03h12

Dez anos, três discos e um punhado de hits depois, esta maturidade descolada é um dos focos do show/documentário Shut Up and Play The Hits, um retrato de Murphy e banda em sua última apresentação, em abril do ano passado. "Nenhum outro grande grupo teve um fim desse", conta Will Lovelace, que dirigiu o filme ao lado de Dylan Southern, e enfatiza o paradoxal ícone trintão, ídolo da moçada indie. A forma controlada como Murphy gravou o último disco e anunciou o fim da banda no último show foi o estopim do interesse dos diretores. "A maioria dos grupos continua junta, mesmo em conflito, ou desmorona por causa de drogas ou mulheres. O LCD Soundsystem é exceção: uma banda que terminou satisfeita com sua obra, e que será lembrada como um dos melhores grupos ao vivo de sua geração", completa. Os motivos do fim foram cansaço, vontade de ter filhos e de fazer café, revela o documentário, que está em cartaz em salas dos Estados Unidos e será mostrado neste fim de semana, em São Paulo, no evento gratuito The Creator's Project, que traz bandas independentes, e também painéis com artistas renomados e stands de gastronomia.

Além de um belo registro da qualidade da banda ao vivo, Shut Up and Play The Hits busca jogar luz na persona reservada de Murphy, que raramente dá entrevistas. Em uma das conversas, Murphy explica que queria ser "antiespecial", construir uma imagem de músicos comuns, com nenhum talento óbvio para fazer música. Esse é, logicamente, um dos paradoxos do próprio, que é reconhecido mundialmente como um mestre do estúdio, e compôs músicas como All My Friends, Daft Punk is Playing at My House e Someone Great, pérolas da síntese pop. O porém desse paradoxo, Murphy completa em certo ponto do documentário, é que ele é "muito competitivo".

Para o filme, Southern e Lovelace passaram a conviver com Murphy por um bom tempo, para que as filmagens, feitas em poucos dias, fossem mais íntimas. Isso fica nítido em uma das tomadas após o show, quando Murphy vai a um depósito em que guarda todo o equipamento do LCD, vislumbra seus sintetizadores e começa a chorar. "Nosso último documentário No Distance Left to Run (sobre o Blur) foi filmado em um mês, então havia tempo para que se estabelecessem laços entre nós e a banda. Neste, tivemos de fazer tudo antes das filmagens, mas conseguimos que James confiasse em nós."

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