A resistência

Os tuaregues do Mali trazem a São Paulo sons e ritmo de uma história milenar

Bolívar Torres, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

No deserto, nada é fácil. A escassez sempre fez parte da vida dos tuaregues, povo nômade do Saara Central que há milênios sobrevive com pouco e resiste como pode. Escondidas em recantos áridos do Mali, Líbia e Argélia, suas dificuldades começaram a ser reconhecidas no mundo graças a um de seus mais ilustres representantes - o grupo malinês Tinariwen. Liderado pelos guitarristas e compositores Ibrahim ag Alhabib e Alhousseini ag Abdoulahi, além do baixista Eyadou ag Leche, traduz musicalmente o estado de espírito de seus pares, o canto agridoce do exílio, a tristeza da perda e o prazer da nostalgia. O ritmo hipnótico e as guitarras abrasivas, síntese de blues e música tradicional tuaregue, impulsionaram a carreira da banda trazendo admiradores de peso como Robert Plant e Brian Eno. Ainda desconhecidos do Brasil, os malineses se apresentam terça no Bourbon Street, às 21h30, como uma das atrações do festival Back2Black.

"Falta tudo onde vivemos", explica de Paris, Eyadou ag Leche. "No deserto não há água, comida, hospitais... Como vivemos em meio à natureza, nosso povo sempre é o primeiro a sofrer com as alterações climáticas, com o aumento do calor e da poluição. No ocidente as pessoas procuram o sol enquanto nós procuramos a chuva."

A história do Tinariwen começa há quase 30 anos. O povo tuaregue ainda sofria com as consequências das secas de 1973, que o obrigou a abandonar a pecuária e migrar para os grandes centros urbanos. Muito antes de se tornarem figuras conhecidas da world music, era em volta de uma fogueira, sem luz elétrica, que Ibrahim ag Alhabib e seus parceiros se apresentavam, cantando para amigos e quem mais se aproximasse. Oficializando o grupo a partir de 1982 durante um festival na Argélia, trocaram seus instrumentos acústicos por guitarras elétricas.

O mergulho na modernidade, porém, não os afastou das raízes. Cantadas em tamasheq, a língua milenar dos tuaregues, as letras evocam a vida nômade, o eterno movimento entre um exílio e outro, clamando pela tomada de consciência, o despertar político para seus problemas. Não por acaso, o estilo musical foi batizado de assouf, termo que em tamasheq pode significar tanto solidão como saudade.

"O assouf é uma música absolutamente tradicional, mas que adaptamos aos instrumentos modernos", define Eyadou. "Guardamos nossas raízes, nossas fontes, para falar do nosso estilo de vida tão peculiar. É na nossa herança que encontramos uma maneira de nos sentirmos à vontade diante das dificuldades do ambiente em que vivemos."

O idioma local ocupa um lugar à parte na tradição. Apesar de ser compreendido por pouquíssimas pessoas no mundo, Eyadou acredita em uma transmissão de coração para coração, que ultrapassa a barreira da língua. "O tamasheq se preserva há 3 mil anos. Tem palavras que só poderíamos expressar em nossa língua. Temos uma maneira única de falar. Mesmo no cotidiano, em casa e com os amigos, falamos através da poesia."

O lamento profundo do assouf logo foi associado pelo público ocidental ao dos bluesmen americanos, especialmente John Lee Hooker (também comparado com outro mestre malinês, Ali Farka Toure). "No início, não conhecíamos o blues, já que não temos rádio ou lojas de disco por aqui. Mas, para nós, o contato com o blues americano foi um marco", conta Eyadou. "Todas as populações que sofrem têm na música uma arma contra a falta de esperança", diz

No grupo há apenas 10 anos, Eyadou não é o mais veterano dos integrantes. Há figuras míticas, como os guitarristas e compositores Alhousseini ag Abdoulahi e Alhassane ag Touhami (apelidados, respectivamente, "Catástrofe" e "Velho Leão do Deserto"). Alguns integrantes, como Mohamed ag Itlal (o "Japonês"), preferem não participar das turnês mundiais - segundo, Eyadou, por não gostarem de deixar a tranquilidade do deserto.

Uma das características mais marcantes do Tinariwen, por sinal, é sua informalidade. Não há formação fixa - músicos entram e saem quando bem entendem - e muito menos ensaios. O compositor começa cantando, e logo é seguido pelo coro e as percussões usuais do deserto, numa cadência suave e repetitiva que lembra o balanço de um camelo. "Assim é nossa música, mas também nossa casa e nosso deserto", compara Eyadou. "O que importa são os sentimentos que acontecem no momento."

A banda cumpriu um papel importante durante as revoltas tuaregues nos anos 90. A gravação de seu último disco, Tassili, coincidiu com as revoltas árabes - um show chegou a ser cancelado na Tunísia. As agências de notícias informaram recentemente que mercenários tuaregues estariam lutando em tropas de Muamar Kadafi, mas Eyadou nega apoio a qualquer lado no conflito. Mesmo assim, acredita que é impossível fugir da política. "Temos canções engajadas que falam sobre a situação do momento. Quando reivindicamos alguma coisa, naturalmente fazemos política, mesmo sem apoiar partidos. Nossa luta é para que o mundo olhe para a nossa situação: uma realidade sem água, sem hospitais, sem desenvolvimento."

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