Mike Segar/Reuters
Mike Segar/Reuters

A resistência de Slash

O guitarrista, que vem ao Brasil no próximo mês, fala sobre o fim do solo e de sua colaboração com Iggy Pop

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2011 | 00h00

Tadinho do solo de guitarra. Foi-se o tempo em que ele protagonizava aquele momento glorioso, logo após o segundo refrão, lavando a alma das multidões tal como um grito de gol. Era uma instituição, com heróis e vilões, listas de cem melhores, especialistas prontos para deixar o parecer melódico em todos os nichos da indústria fonográfica.

No mainstream, a coisa começou a degringolar lá pelo começo dos anos 90, com a ascensão do grunge. Curto e conciso, extrapolando a força motriz blueseira ao ponto de ruído, o solo de Kurt Cobain em In Bloom, segunda faixa do antológico Nevermind, apontava para a desconstrução e o reducionismo que levariam a forma à beira da extinção.

Na mesma época, Slash a defendia com unhas e dentes. Seu estilo lógico, quase erudito no desenvolvimento de melodias, resultou nos últimos grandes marcos da forma, cravados na história do rock em Use Your Illusion 1 e 2, os discos mais famosos do Guns n" Roses.

Desde então, Kurt morreu e o Guns virou lenda, mas Slash, embora ativo em um contexto que não valorize tanto a sua arte, continua firme, um fiscal do rock clássico capaz de atear fogo em qualquer banda, como mostrou em disco solo, no ano passado, e na recente apresentação do Black Eyed Peas no intervalo do Super Bowl.

O guitarrista culpa a baixa qualidade dos músicos de hoje pela derrocada do solo: "Eu acho que virou essa coisa passé porque os guitarristas não se entregam de corpo e alma como faziam nos anos 50, 60, 70", contou, por e-mail, em entrevista ao Estado. "Mas vejo um retorno do solo num futuro próximo", disse.

Slash virá ao Brasil no mês que vem em turnê de divulgação do homônimo Slash, primeiro disco depois de seus projetos com as bandas Slash"s Snakepit e Velvet Revolver. Como não poderia deixar de ser, os solos do disco receberam elogios da crítica. Ofuscaram até a opulenta lista de participações especiais, que vai de Iggy Pop, a Ozzy Osborne, passando por Fergie e Dave Grohl.

A participação de Iggy, que colabora há tempos com Slash, é um dos pontos altos do disco. "Nem tenho o que dizer sobre ele. É um pioneiro do rock, um cara que te inspira só por estar no mesmo lugar", contou. Para o disco, Slash mandou uma música sem melodias para Iggy, que ligou de volta, três dias depois, gritando a letra sobre a fita demo: "Nós todos vamos morrer, então vamos ficar muito loucos... Vamos invadir, mijar no chão, pular por toda parte", cantava o roqueiro. "Quando ouvi, pensei: "Caraca!" Esse é o espírito que deveria seguir, não importa aonde nós chegaremos tecnologicamente nos próximos 40 anos", revelou, em entrevista ao site Artistdirect. O veterano usa, em todos os discos desde 1987, a mesma guitarra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.