A República, filosoficamente

Há quem sustente que, em janeiro de 1890, Itaparica ainda não tinha certeza de que a República fora proclamada no ano anterior, notadamente o filósofo e tribuno Nabucodonosor Pontes Ferrão, autor de valente discurso intitulado "Onde se encafurna ela, que não aparece?". Com essa alocução, pronunciada no Largo da Quitanda, em arroubado improviso ornado de lindas ordens inversas, e tida por alguns como apócrifa, mas não obstante ainda venerada como peça de estilo e civismo, o orador, segundo se diz, chegou a convencer grande parte de seus concidadãos de que a República não existia, era uma invencionice de poetas, desocupados e loroteiros.

João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Para tornar a história completa, deve acrescentar-se que ele classificou a tão comentada República de "mero factoide". Eu, que nunca tive acesso direto ao documento, estranhei o uso dessa palavra, mas Jacob Branco, ele próprio notável orador e estudioso da vida e obra de Nabucodonosor Ferrão, garantiu que o termo já era usado desde o tempo em que o padre Vieira xingava os hereges na Catedral da Bahia e que seu emprego recente, como palavra do Sul do País, configura mais um furto filológico, dentre os muitos de que Itaparica sempre foi vítima. E até hoje é um argumento válido, assinala Jacob, porque a República de fato continua a aparecer muito pouco na ilha, tendo-se escassa notícia dela, a não ser na hora de pedir os votos e cobrar os impostos. No mais, que se saiba, continua encafurnada, só que agora em Brasília.

Fato ou factoide, Jacob também me assegurou que, em 1890, as comemorações do Sete de Janeiro, data em que celebramos a verdadeira independência brasileira, pois foi quando acabamos de correr a tapa o opressor lusitano, sucederam em clima conturbado. (Não queremos desmerecer ninguém, mas esse negócio de independência no grito é mole, na ilha foi que o pessoal teve de sair no braço). Realizaram-se em meio a um racha inconciliável, entre os que pretendiam continuar a homenagear o imperador nos festejos, como era da tradição, e os que se anunciaram como prepostos ou representantes da tão falada República e só queriam saber de marechal pra lá e marechal pra cá. Fizeram dois cortejos, ambos desfilando debaixo dos apupos, cacetadas e pedradas dos opositores, e dizem que certas famílias da ilha que até hoje não se dão bem começaram a rixa por ocasião desse mencionado Sete de Janeiro.

Estamos já bem longe desses tempos e os poucos monarquistas que restam na ilha limitam suas atividades subversivas a reuniões secretas que todo mundo sabe que são às quintas-feiras, depois da novela, na casa de Bertinho Borba, que até hoje não desistiu da ideia de ser nomeado barão. Desde aquele 1890 que eles nunca esquecem, os monarquistas, como acho que já contei aqui, estão tentando redigir, sem concordar nem nos termos nem na gramática, um convite endereçado ao futuro rei da ilha, cujo nome é também objeto de intensa controvérsia, pois uns querem um português d. João ou d. Pedro legítimo, outros querem um holandês, outros querem um japonês rico e assim por diante, não há acordo à vista.

Quanto ao proverbial homem da rua, ou popular, na ilha, creio que uma pequena entrevista com Azeda, que continua muito empertigado e elegante, sempre desfilando de chapéu armado com uma inclinação meio malandra, é esclarecedora. Azeda declarou-se inteiramente favorável a tudo o que lhe perguntaram, mesmo quando isso rendia algumas contradições. Afinal, ele era contra ou a favor da República? Houve hesitação, mas foi breve.

- É o seguinte, bote aí - disse Azeda. - Eu estou com o Homem. Minha posição é clara. Bote aí: minha posição na República é com o Homem.

Diante de postura tão resoluta, não creio que haja grandes manifestações amanhã. É duvidoso que Ari de Maninha, orador junto ao qual até Jacob Branco é calouro, venha a fazer sua costumeira palestra alusiva à data, no bar de Espanha, até porque Espanha rechaçou a ideia, apresentada pela comissão dos festejos, de conceder um desconto de 15 por cento na cerveja. ("É 15 no 15!", inspirado slogan de Ari de Almiro, em feliz referência simultânea ao 15 de novembro e aos 15 por cento do desconto, mas, ao que parece, Espanha não é muito sensível ao marketing moderno).

De qualquer forma, o 15 de novembro nunca foi mesmo muito prestigiado na ilha, nem sequer entre os mais progressistas e esclarecidos. Persistem na memória de seus discípulos ainda vivos os ensinamentos de Waltinho Filósofo, o pranteado fundador da Escola Filosófica do Sorriso de Desdém, que disse que a República, como todas as demais obras do homem escravizado ao homem, só merecia mesmo um sorriso de desdém. A única vantagem dela sobre a monarquia era que tinha propiciado um grande aumento de gente para se xingar e se indicar para o inferno - às vezes Waltinho era um tantinho radical. E talvez tenha também pegado trauma de República, porque, pouco antes de fundar a escola do Sorriso de Desdém, tentou montar a República de Platão na ilha, ele e os discípulos desfilando para lá e para cá com coroas de folhas de pitanga e enrolados em lençóis sem nada por debaixo, porque não consta que Sócrates usasse cueca. Mas essa República não foi bem compreendida pelo delegado, de maneira que podemos dizer que se tratou da última grande experiência republicana em Itaparica. E creio que o resto pode ser resumido na postura de Azeda. Quando ele repetiu que estava com o Homem, alguém lembrou que agora não vai ser mais homem, vai ser mulher.

- Então bote aí: eu estou com a Mulher. Vocês não me pegam, minha posição na República é com a Mulher, aqui pra vocês todos, eu também sou filosófico.

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