A religião na Romênia pós-Ceausescu

Em Cannes, em maio, o próprio diretor Cristian Mungiu contou ao repórter do Estado o que o atraiu tanto na história de Além das Montanhas (Beyond the Hills). "A religião é muito importante em meu país (a Romênia) e essa era uma oportunidade de enfocar a questão religiosa, mas de tal forma que os conflitos de consciência, o engajamento, a militância e o sentido laico da vida podem ser vistos também como resíduos de uma outra discussão, aquela que a gente tinha sob a ditadura de Ceausescu, durante o comunismo. Toda forma de fanatismo é prejudicial ao humano", ele avalia.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2012 | 03h10

Havia grande expectativa pela volta de Mungiu à competição de Cannes, depois que ele ganhou a Palma de Ouro com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias em 2007. O outro filme colocava em discussão um tema polêmico, o aborto, mas não era só sobre isso que Mungiu queria falar. Ele queria dar seu testemunho sobre o Romênia pós-Ceausescu. É de novo o objetivo de Além das Montanhas. Duas amigas de infâncias se encontram num monastério, mas uma delas está ali para tentar convencer a outra a abandonar o noviciado, indo com ela tentar a vida na Alemanha.

O filme começa com o drama de Voichita (Cosmina Stratan), que reluta em ceder aos apelos de Alina (Cristina Flutur). Voichita encontrou segurança - sua paz interior - no culto a Deus, mas a outra insiste. Vira uma história de exorcismo, com lances de extrema repressão e violência que fazem com que o Estado, a polícia, intervenha no meio da religião. E tudo se passa no monastério, na igreja e no prédio anexo. Ao repórter, Mungiu explicou que não havia encontrado um monastério real, e menos ainda um no qual as autoridades religiosas consentissem em abrigar a filmagem.

Ele fez construir o cenário do seu drama. "Foi tudo milimetricamente planejado, porque desde o início sabia que queria filmar em planos sequências e, assim, o espaço foi criado prevendo os deslocamentos de atores e da câmera, a distância de um espaço a outro." Parte da crítica ficou desapontada com o filme de Mungiu, que chegou a ser chamado de 'melodrama cerebral'. Mas a verdade é que quem gostou foi além e amou o filme, entre esses incluindo-se o próprio júri presidido pelo ator e diretor Nanni Moretti.

Pois Além das Montanhas foi o único filme ao qual Moretti e seus jurados atribuíram mais de um prêmio - Cristina e Cosmina dividiram o prêmio de interpretação e ambas são realmente viscerais nos papéis. Mas o júri também queria premiar Mungiu e lhe deu o prêmio de melhor roteiro, já que o de direção, pelo novo regulamento do festival, não pode ser acumulado. É um filme bem escrito, principalmente bem filmado e que cria um sentimento de opressão e claustrofobia. Isso vem por meio da câmera, do espaço e das interpretações, só que você estará tão imerso no drama que dificilmente terá distanciamento para conferir essas coisas.

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