A relação entre velhos e jovens em curtas afiados como navalha

Duas produções nacionais, uma dirigida por Pedro Jorge e outra por Hélio Villela Nunes, trazem atores perfeitos

GRAMADO, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2013 | 02h15

Dois curtas movimentaram no domingo à noite o 41.º Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino. São dois curtas nacionais. Ambos tratam da relação entre velhos e jovens. Um avô e seu neto adolescente em A Navalha do Avô, de Pedro Jorge, e o avô é o crítico e escritor Jean-Claude Bernardet; dois estranhos, um velho solitário e um garoto negro que invade o território do primeiro em Arapuca, de Hélio Villela Nunes.

O que é o cinema? É uma pergunta que a gente não cessa de se fazer, e num festival de cinema mais ainda, pois as propostas costumam ser muitas. A Navalha promete, quem sabe, violência, e há um momento de (quase) terror em que o adolescente, ao barbear o avô sob o olhar inquieto da avó, parece que vai cortar o velho. Ele está mal de saúde e o garoto exaspera-se de andar com ele, para lá e para cá. Mas, de repente, ao penetrar no universo do idoso - a barbearia -, ele o descobre e entende.

É um cinema do cotidiano, de pequenos gestos e observações, de cenas familiares. O diretor admitiu que Jean-Claude, o crítico, sempre foi para ele uma referência e por isso ele já escreveu A Navalha do Avô sonhando em tê-lo no papel. Jean-Claude topou, e faz um belo trabalho. Ele já apareceu em outros filmes, mas sempre no próprio papel. Aqui, cria um personagem, e o cria bem. Seu carisma é impressionante. Sua persona é humana. A navalha não entra como instrumento de terror, mas de ruptura simbólica - de castração, Jean-Claude brinca.

O velho e o menino de Arapuca divergem em torno de uma árvore. O velho plantou a semente, a árvore deu frutos e agora o garoto invade o espaço. E come o fruto. Estabelece-se a tensão. O velho é duro, solitário. Cria uma armadilha com um boneco de palha - a arapuca - para surpreender o menino. Ele é negro, rosto de bravo. Não se entendem, ao contrário do avô e do adolescente no outro filme.

Villela Nunes disse que o filme dele nasceu de uma paisagem. Uma certa árvore da fazenda de sua infância, em Lins. Ele filmou em suntuoso preto e branco. A paisagem natural é importante como a paisagem humana, os rostos. Os atores são perfeitos nos dois filmes. Não importa o formato. Tamanho não é documento. Os curtas marcam presença em Gramado 2013. / L.C.M.

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