A reinvenção de Zizi Possi

Sem gravadora, cantora banca produção de dois DVDs com convidados, que lança com shows no Tom Jazz

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2010 | 00h00

Muitos artistas veteranos, consagrados no tempo em que as gravadoras multinacionais ditavam as regras do mercado, vêm enfrentando dificuldades para se adaptar à nova realidade. Zizi Possi é uma delas. Para comemorar os 30 anos de carreira em 2008, ela bancou do próprio bolso a produção e a gravação de uma série de 12 shows no Tom Jazz, parte dos quais acaba de sair em dois DVDs (leia abaixo). Zizi recebeu como convidados Roberto Menescal, Edu Lobo, Alceu Valença, Alcione, Eduardo Dussek, João Bosco, Ivan Lins, Ana Carolina, Luiza Possi e Toninho Ferragutti, que têm a ver com sua trajetória. Para cada noite, um roteiro diferente. Nos dias 19, 20, e 21 de agosto ela volta ao mesmo palco, desta vez sem participações e sem variar o repertório, nas três noites, incluindo canções dos DVDs.

Manter a integridade artística hoje custa muito, embora a liberdade de criação, sem produtores imediatistas pressionando, compense. Seguindo os passos de Maria Bethânia (que ela idolatra e convidou, mas não pôde participar do projeto), Zizi enfrenta outros obstáculos, daí a demora de dois anos para seus dois DVDs chegarem ao público. Além da responsabilidade da produção (com apoio de Paulo Amorim, dono do Tom Jazz, que se encarregou da logística e do patrocínio para os shows), foi uma trabalheira em termos de conteúdo.

Sofisticada e popular. E como já ficou notório, Zizi é muito exigente com tudo. No que no início da carreira - como lembra seu irmão José Possi Neto, que assina a direção geral e a cenografia - essa sofisticação se tornou até um problema para ela. "O mercado não estava e continua sem estar preparado para isso. Acho que os ouvintes sim estão mais bem preparados para discernir uma coisa da outra, então abre-se o espaço para coisas bem-acabadas. Mas houve uma época que isso era sinônimo de encrenca", lembra a cantora.

Havia um estigma de que o que era bacana não era comercial. "Mas nunca se tentou tornar o bacana comercial. Tanto é que quando eu disse "tchau, vou procurar minha turma", é porque sinceramente acreditava, e acredito, que não se precisa ser mal-acabado para ser popular."

Porém, sem a infraestrutura de uma gravadora por trás, Zizi considera a situação hoje "bastante difícil". "É o momento de todo mundo ter de se reinventar. Valores vão mudando com o tempo, mas os princípios são a raiz da arte. E parece que essa raiz está meio dissolvida na terra. A música tem um valor imenso, ela entra na vida da gente sem a gente perceber, ela modifica o ambiente, ela colore ou descole, é um passaporte para você ir mais fundo na sua alma. Isso é poderoso. Só que quando ela virou mercado, a indústria quis fazer disso um capital de giro rápido e certeiro, sem ficar dependendo de conteúdo artístico, começou a botar no mesmo saco farinhas diferentes. Então junto com a música de verdade começou a vender peitos e bundas, piadas, sexismo e um bando de coisas com o nome de música. Essa foi uma depauperação que a indústria provocou. O outro esvaziamento foi da tecnologia, com a substituição do LP pelo CD e a facilidade de se copiar esses discos com equipamento barato, caseiro."

Camicase. A princípio Zizi não ia gravar nada dessa série, eram só os shows. Mas os convidados a estimularam a registrar os encontros. "Sabia que seria um projeto camicase. Até tive uma proposta, mas era um equipamento tão fuleiro, que seria jogar dinheiro fora. Então eu mesma banquei a gravação de áudio e de vídeo, o que é uma loucura, porque sou uma pessoa física. Mas quis perpetuar porque é um grande acervo da música popular brasileira, com encontros inéditos e muita música inédita na minha voz."

O projeto não se encerra com o lançamento dos DVDs, que somam 36 canções na parte do Cantos (shows) e outras no capítulo dos Contos (depoimentos). O restante do material, Zizi pretende disponibilizar pelo menos em áudio, lançando em CDs.

O que ela mais queria era valorizar a parte dos depoimentos, como o de Menescal, por exemplo, personagem fundamental na carreira da cantora e com quem não se encontrava havia muito tempo. Foi ele quem a levou para a gravadora Philips, na qual trabalhava como diretor artístico, e propôs a ela em 1977 gravar o primeiro LP, Flor do Mal, lançado no ano seguinte. No mesmo 1978, Chico Buarque a convidou para gravar em duo com ele a consagradora Pedaço de Mim (parte do encontro dos dois nessa canção num programa especial de tevê está num dos DVDs).

"Edu Lobo é uma pessoa tímida, mas tem um lado engraçado que eu queria mostrar para as pessoas", diz Zizi. Foi inspirada nele que ela construiu sua identidade musical. "As canções de Edu evocam o melhor de mim como intérprete. Tenho de buscar dentro mim o melhor entendimento, a melhor performance, porque cantar Edu não é tarefa das mais fáceis." O resultado desse empenho se nota nas interpretações definitivas de obras-primas como Valsa Brasileira, Sobre Todas as Coisas e O Circo Místico, parcerias com Chico Buarque (que ela também convidou para os shows). "E tenho uma identidade com o universo dele, onde passeia o erudito e o popular."

Renovação. Zizi diz que se sente um pouco E.T. em relação à música que se faz hoje no Brasil, mas constata que seu público se renova e até cresceu, por mais que ela esteja fora da mídia convencional. Um dos seus maiores fãs, que a acompanha pelo blog, é um jovem de 16 anos. "Nunca fui uma grande vendedora de discos, nem na época de Asa Morena", lembra. Houve aquele boom de popularidade com Per Amore - álbum de canções românticas italianas que vendeu mais de 1 milhão de CDs em 1997 - mas depois disso "ficou quem tinha de ficar". Está melhor assim.

O QUE DIZEM DELA

Edu Lobo:

"Ela faz disparar o coração das pessoas. Qualquer ideia que a Zizi tiver na vida eu vou sempre querer fazer com ela."

Eduardo Dussek:

"Costumo dizer que se eu fosse Givenchy, ela seria Audrey Hepburn. Ela é nossa maior cliente, gravou muita coisa nossa."

João bosco:

"Zizi nasceu pronta, é uma grande cantora. Isso é uma característica desses tempos: a pessoa amadurecia, se preparava. Quando surgia estava pronta."

Ana Carolina:

"Apesar de não tocar, ela rege, sabe exatamente o que quer, conhece cada parte da canção."

Alcione:

"Zizi é uma pessoa que sempre admirei, sempre curti muito em toda sua trajetória. É bom cantar com quem sabe cantar."

Toninho Ferragutti:

"Ela é uma das maiores cantoras da MPB, desejadíssima pelos compositores, uma marca de qualidade."

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