A reinvenção de Nosferatu

Maestro e compositor, Pierre Oser fala da nova trilha do filme de Murnau e da releitura de clássicos por meio da música

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2012 | 02h08

Oito da noite - ocorre hoje, na área externa do Auditório Ibirapuera, a partir das 20 horas, a apresentação ao ar livre do clássico Nosferatu, de Friedrich Wilhelm Murnau, com trilha ao vivo do maestro Pierre Oser, executada pela Orquestra Petrobrás Sinfônica. Considerado um dos marcos do expressionismo alemão, o filme de 1922 ressurge numa versão esplendorosa. "Ao contrário de outros filmes que foram restaurados recentemente, Nosferatu não tinha mais o negativo original. O restauro foi feito com várias cópias positivas, mas graças a um sofisticado trabalho de digitalização, as diferenças das imagens foram eliminadas e os técnicos chegaram a uma rara uniformidade", explica Oser numa entrevista por telefone, do Rio.

Na semana passada, ele ministrou uma master class na Faap, justamente abordando o tema música no cinema e a importância das trilhas no processo criativo de filmes. Admirador de parcerias célebres, como Alfred Hitchcock e Bernard Herrmann, Federico Fellini e Nino Rota, Sergio Leone e Ennio Morricone, Steven Spielberg e John Williams, Oser ressaltou a diferença fundamental na função da música nos filmes do chamado período silencioso, quando os compositores tinham toda liberdade de criar e recriar as trilhas.

"Podemos dizer que o cinema mudo nunca foi silencioso e que, na verdade, era sempre acompanhado por música. Em 1929, em Berlim, havia mais de 50 músicos para acompanhar as trilhas nas maiores salas da cidade, e o mesmo estava ocorrendo em Paris, Londres, Nova York." Sobre a própria história, Oser explica que, como compositor e maestro, a música que lhe interessa é sempre acompanhada de uma função cênica ou dramatúrgica. "Tanto faz que seja ópera, dança ou filmes clássicos", acrescenta.

O próprio Murnau, considerado um dos grandes do expressionismo, começou no teatro, com Max Reinhardt. Seus primeiros filmes seguiram o modelo corrente do movimento, mas com Nosferatu ele rompeu com os cenários estilizados, à maneira de Robert Wiene em O Gabinete do Dr. Caligari. Boa parte do filme passa-se em ambientes naturais. Depois, com A Última Gargalhada, Tartufo e Fausto, entre 1924 e 26, ele transformou seu expressionismo em outra coisa, criando a tendência chamada de kammerspiel, o cinema de câmera, voltado à investigação interior de seus personagens. Em Hollywood, com Aurora, em 1927, ele já é o que se chama de 'realista'.

A evolução de Murnau é, ela própria, uma revolução do cinema. Nosferatu segue sendo um dos mais belos filmes do cinema mudo - do cinema em qualquer época. Livremente adaptado de Drácula, de Bram Stocker, o filme mudou de título porque Murnau não tinha os direitos e não podia usar o nome do personagem. O castelo assombrado, o porto invadido pelos ratos que seguem/ antecipam o vampiro - no que muitos historiadores veem como crítica aos primórdios do nazismo -, a figura sinistra do morto-vivo interpretado por Max Schreck, tudo impressiona ainda hoje. Pierre Oser conta que seu objetivo foi lançar, sobre o filme antigo, um ponto de vista contemporâneo, com base na música.

Há 25 anos, ele já havia feito isso com a trilha que criou para Metrópolis, de Fritz Lang, outro marco expressionista. Embora situados dentro do mesmo movimento, não existem filmes mais diversos entre si. Lang, em 1926, estava antecipando o futuro. Murnau investigava o presente da época e propunha uma viagem inusitada ao interior do seu monstro sem coração. "Vi muito o filme tentando decifrar seu significado, a dicotomia entre luz e sombra, entre vida e morte. Nosferatu nunca teve uma composição original. Na época, os músicos que acompanhavam o filme ao vivo apresentavam compilações de outras peças. Por conta disso, foi mais fácil criar uma trilha original." Seu foco divide os cerca de 90 minutos do filme em três peças de 30 minutos cada uma. "Meia hora de cordas e percussão, meia hora sem música, mas com vozes, e a meia hora final que mistura vozes, cordas e percussão."

As vozes dramatizam o texto extraído das Metamorfoses do poeta latino Ovídio e o interessante é que Oser já criou não uma, mas duas trilhas para Nosferatu. Com base em suas pesquisas, o maestro conta que a interação cinema/música, no período silencioso, por se basear muito na improvisação, levava até mesmo a mudanças na velocidade de projeção dos filmes. "Pode-se dizer que era a música que conduzia o filme. E se as pessoas assistissem ao mesmo filme em diferentes salas, na época, teriam experiências estéticas e sonoras diferentes. Nada era igual."

Esse tipo de interação desapareceu com o cinema mudo, mas, nos últimos anos, a ideia de reler o filme por meio da música tem voltado com força. "Recentemente, tivemos um festival na Alemanha em que O Encouraçado Potemkin (de Sergei M. Eisenstein, de 1925) foi apresentado com três acompanhamentos musicais diferentes - a trilha original, um grupo de jazz e outro de violão nova-iorquino." O repórter fala da revelação que foi para ele assistir a outro filme de Eisenstein, Outubro, na Berlinale, em fevereiro, com música ao vivo. "Apesar da fama da cena da escadaria de Odessa, Outubro é o melhor Eisenstein", arrisca. Oser, no que não chega a ser surpreendente, concorda. "A releitura da música ao vivo tem resultado em experiências viscerais", ele define.

/ UBIRATAN BRASIL

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