Azul213/Divulgação
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A redescoberta do cultuado Arthur Verocai

Músico recria álbum antológico em concerto registrado em filme, vai tocar em São Paulo e prepara novo CD

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2011 | 00h00

Em 1972, o compositor e violonista Arthur Verocai lançou seu primeiro álbum solo, depois de anos trabalhando como arranjador para inúmeros astros da música brasileira. Tinha então emplacado sucessos autorais nas vozes de Elis Regina (Um Novo Rumo), Maysa (Catavento) e outros, e atuado como diretor musical e maestro em vários shows com destaque para A Vida de Braguinha, ao lado de Elizeth Cardoso e os grupos Quarteto em Cy e MPB-4.

Porém, pouca gente entendeu "aquelas maluquices" de "500 tendências", misturando jazz, bossa, experimentalismo, que Verocai cometeu no primeiro álbum. "Ouvia Ravel, Villa-Lobos, Weather Report, gostava de tudo. O que ficou armazenado no HD foi saindo inconscientemente. Juntei tudo", diz. Apesar de ter tocado uma ou outra faixa à noite em rádios cariocas, como a Jornal do Brasil e a Tamoio ("naquela época nem existia FM"), o disco caiu no limbo. O próprio músico, frustrado com a repercussão praticamente nula do trabalho ao qual se dedicou com total energia, acabou por boicotá-lo. Até que foi redescoberto por rappers americanos e virou cult desde que Little Brother sampleou um trecho de Caboclo para fazer We Got Now.

 

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No dia 15 de março de 2009, dirigindo uma orquestra de 30 músicos, entre brasileiros e americanos, incluindo Airto Moreira e sua filha Diana Booker, Verocai realizou um concerto com o repertório desse disco em Los Angeles para uma plateia lotada e extasiada. Brian Cross, Eric Coleman e Andrew Lojero produziram a filmagem do concerto, para sua famosa série Timeless, e o filme chega agora às telas brasileiras, depois de ser lançado em DVD nos EUA.

A primeira exibição será hoje no Espaço Unibanco Augusta, às 21h30, com a presença de Verocai e de Cross, fotógrafo irlandês radicado nos EUA e também conhecido como B+. Outros dois filmes da série, dedicados ao DJ Dilla e a Mulatu Astatke (leia abaixo) serão exibidos amanhã e sexta no mesmo horário. A programação no Rio começa no dia 16.

Show e CD novo. Nos dias 16 e 17 de abril, Verocai volta a São Paulo para realizar dois concertos semelhantes àquele no Sesc Belenzinho, com parte da mesma orquestra, incluindo os cantores Clarisse Grova e Carlos Dafé, e o reforço de músicos como Robertinho Silva, Nivaldo Ornellas e o "pessoal que está vivo" e participou da gravação do disco.

"Ensaiamos dois dias antes do concerto em Los Angeles, e quando olhei para aquele teatro grande, vazio, com 1.200 lugares, disse: será que vem alguém aí? No dia da apresentação estava lotado, foi impressionante", lembra Verocai. "O filme é editado, não aparece muito, mas quando entrei recebi uma ovação que me deixou espantado. Os caras urravam. Cheguei na frente da orquestra, fizeram um silêncio sepulcral, em sinal de respeito. Na plateia tinha muitos DJs, músicos jovens até 30 anos na maioria."

O maestro lembra que teve "carta branca" para fazer o disco de 1972, que tem por título apenas seu nome. "Fiz do meu gosto, dei de tudo ali, e chega e não acontece nada em termos de venda. Estava começando a entrar no metiê de publicidade, então passei a viver disso, dava uma grana legal. Sou meio maluco nesse ponto, falei que se dane o mercado, o mundo, porque o que faço não tem espaço."

Ele só voltou a gravar outro disco, o independente Saudade Demais, em 2002, com participações de Ivan Lins e Azymuth. Em 2007, lançou Encore, pelo selo britânico Ubiquity. Com peças para quarteto de violões e várias canções guardadas, agora corre atrás de patrocínio para gravar outro álbum ainda em 2011, em parceria com Brian Cross.

O filme da série Timeless é um bom indicador para isso. Verocai continuou atuando como arranjador esporadicamente e em 2010 foi convidado por Marcelo Jeneci para criar arranjos de várias faixas de seu álbum de estreia, Feito pra Acabar. O carioca Kassin, produtor do disco, é outro entusiasta de Verocai.

Além de recriar os sensacionais arranjos do lendário álbum de 1972, o maestro mostra no filme suas facetas de cantor (em Caboclo) e violonista, na versão instrumental de Filhos, que abre a segunda parte do concerto, com repertório de seus outros discos e a inédita Flying to Los Angeles, que compôs especialmente para a ocasião, e temas de publicidade "que não foram aprovados e viraram música", como Queimadas, feitas para uma campanha sobre a Amazônia. "Essa volta foi muito legal, porque acabei influenciando a nova geração, como esse pessoal do hip-hop."

TIMELESS

Espaço Unibanco. Rua Augusta, 1.470, Consolação, telefone 3288- 6780. De hoje até sexta-feira, às 21h30. R$ 16 / R$ 25.

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