A rede mental

Não é de hoje que tentam associar movimentos por democracia com a influência das redes sociais, twitter, etc. Os acontecimentos no mundo árabe, iniciados na Tunísia, também foram explicados assim, como se o Facebook fosse o estopim libertário. Mas é bom não confundir meio - mídia - e fim. Os conflitos no Egito, por exemplo, são produto do desgaste de 30 anos da ditadura de Mubarak, e depois das tentativas de bloquear internet e celular quem está literalmente apanhando são os jornalistas profissionais. E isso por um motivo tão antigo quanto a política: todo tirano começa seu governo querendo exercer o controle sobre a informação. Não basta a força policial; é ainda mais fundamental manter a propaganda oficial acima da contestação da imprensa séria, promovendo a lavagem cerebral dos cidadãos convertidos em manada.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2011 | 00h00

Durante a queda em dominó dos regimes ditos comunistas, no final dos anos 80, a TV teve papel importante. A mera divulgação de outros padrões de consumo, que envolvem a liberdade de se divertir e de não viver de acordo com a necessidade ditada por um grupo de burocratas, ajudou a Europa Oriental a ver a mentira em que vivia. Antes, os governos autoritários, como o de Getúlio Vargas e seu Departamento de Imprensa e Propaganda - assunto que ainda merece muitas pesquisas e livros -, sempre tentaram reagir não apenas com a censura, mas com a sobreposição de um discurso único, de exaltação patriótica, que às vezes demora gerações para ser desconstruído. Mas, por mais que eles tentem controlar a internet, como na China, ou utilizar as informações que nela circulam para monitorar as pessoas, a multiplicação dos meios de comunicação foi a pior notícia que poderiam receber. Só mesmo os cínicos não comemoram o fato de que hoje há mais democracia no mundo do que em qualquer época.

Essa, porém, é apenas uma parte da história. O apoio de EUA e Israel a Mubarak, como nas décadas de 50 a 70 a qualquer regime anticomunista, é justificado como um mal necessário para bloquear a suposta ascensão de fanáticos islâmicos. Esse tipo de diplomacia, de "realpolitik", é que deveria estar com os dias contados. Se continuarem a tratar o Islã como incompatível com a democracia, aí sim essas forças tendem a crescer. Um regime democrático, plural e pacífico no Egito teria o poder de influenciar toda a geopolítica da região, apesar da resistência autocrática em elites como a saudita. E uma vez que esse processo ganhe consistência, se tiver o apoio de líderes como Barack Obama, ele mesmo um fenômeno amplificado pela Web, seguramente a nova mentalidade ganhará as redes sociais. De nada adianta ter uma página apenas para contar que o calor está forte. O que precisamos é de um Mindbook.

Cadernos do cinema (1). Fui enfim ver o filme de Clint Eastwood, Além da Vida, temeroso de me deparar com uma história de mediunidade. O filme não é grande coisa, mas os críticos mais uma vez só entenderam uma parte dele... São três histórias - a apresentadora de TV francesa que quase morreu afogada no tsunami, o médium (Matt Damon) que quer levar uma vida normal com uma companheira e o menino que tem mãe drogada e perde o irmão gêmeo - e elas obviamente vão se cruzar num final adocicado. Mas Clint, que tanto criticou padres em filmes como Menina de Ouro e Gran Torino, não aderiu a Chico Xavier. Mostra a frieza cruel de um padre com o menino e a infinidade de charlatães que se dizem médiuns. E diz mais de uma vez que a ciência ainda não sabe explicar por que a experiência de "quase morte" gera um mesmo tipo de imagem mental nas pessoas mais variadas; não é preciso acreditar em comunicação com os mortos para apreciar o filme.

O que o personagem de Damon diz ao menino, afinal, não é nada além do que os assistentes sociais e os pais adotivos deveriam ter dito, bastando notar que ele começou a usar o boné que o irmão usava: "Agora é só você, siga em frente", etc. E o que realmente muda na vida da apresentadora é que passa a ver como vivia de vaidade e fama, sempre tão traiçoeiras. O que Clint está dizendo é isso, que a vontade de falar com os mortos não leva a lugar nenhum, mas talvez seja difícil de entender num país onde até intelectuais acham que ser agnóstico é ficar em cima do muro ("Não sei se Deus existe, pode ser que sim"). Mais importante é se abrir às experiências e à imaginação, como os aromas da culinária, os personagens de Dickens (lido pelo lendário Derek Jacobi, num jogo com a palavra "reading", que no filme significa "leitura" e também o contato com o além), o afeto pela mulher e pelos filhos - e parar com essa mania de querer que os outros resolvam nossa vida de maneira plena.

Cadernos do cinema (2). As crianças puderam se divertir no cinema nas férias, com filmes como Enrolados, da Disney, que vale pelas sequências cômicas, e mesmo adolescentes como Tron, sobretudo pelo design. De As Viagens de Gulliver, com Jack Black, eu não esperava muito, certo de que faria Jonathan Swift rolar sete palmos abaixo, mas não esperava tão pouco. O clássico infanto-juvenil, para começar, nem mesmo é infanto-juvenil, pois Swift o escreveu para envergonhar a humanidade, não apenas diverti-la (sic). Além disso, em geral é adaptado apenas nas duas primeiras partes, sobretudo o episódio de Lilliput, o que tira algumas das páginas mais geniais da segunda metade. O filme tenta transformar o viajante num bobalhão do bem, envolvido num enredo de Sessão da Tarde... Felizmente, para jovens ou adultos, nova edição do livro acaba de sair pela Penguin Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto.

Uma lágrima. Maria Schneider morreu no dia 3, com apenas 58 anos. Quando tinha 20, o filme O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, estreou e chocou muita gente com cenas como a da manteiga. Embora tenha feito dezenas de filmes depois, inclusive Profissão Repórter, de Antonioni, ela passaria o resto da vida se queixando da cena, que teria sido improvisada no set e humilhante para ela. Não sei se é verdade, mas sei que se trata de uma das grandes passagens do cinema, um baita filme e uma das melhores atuações de Marlon Brando, como em outra cena famosa, em que também improvisa enquanto vela o cadáver da esposa. Antes de filmar, Bertolucci levou Brando ao museu para ver pinturas de Francis Bacon para inspirar seu personagem de meia-idade, sem nome, que quer pôr a realidade entre parênteses naquele apartamento alugado, onde emite grunhidos de agonia e êxtase. Poucos lembram que ele também tem uma cena forte, em que pede para ela cortar as unhas antes.

Ter participado de uma experiência dessas e, mesmo sem ser uma beldade (pelo menos aos meus olhos), entrado para a antologia do cinema que todos temos na cabeça - Maria Schneider não deveria ter sentido sobre isso nada senão orgulho.

Por que não me ufano (1). A história da interpretação das descobertas da ciência pela sociedade é repleta de mal-entendidos e distorções - em especial na física. Veja a Teoria da Relatividade de Einstein, que o leigo-mor traduz como "tudo é relativo". Mas na física quântica, que gênios como Paul Dirac e Richard Feynman foram os primeiros a dizer "esquisita", a distância é bem maior. Ela virou alegação para tudo que é coisa, desde canções de Gilberto Gil sobre o "mistério" até charlatanices e parapsicologias de todos os tipos. Meu comentário sobre as mudanças nos signos astrológicos, por exemplo, recebeu réplicas como a de que "tudo é ilusão", baseadas em supostas lições da física quântica sobre como a realidade não pode ser submetida a verificações experimentais... Em seguida, fui acusado de não ver "fatos" como o de que existem energias incaptáveis que os astros emitem para definir meu destino. O lema dessa gente deveria ser: "Se não pode ser medido, aí sim é que é verdadeiro".

Por que não me ufano (2). Também escrevi na semana passada que Dilma Rousseff poderia ter aproveitado o primeiro mês de governo e lançado propostas à sociedade em áreas como produtividade e educação. Pois bem, o Congresso voltou das férias, com José Sarney de novo no comando do Senado e um petista gaúcho na Câmara, onde estrelas como Romário e Tiririca brilharam e depois cochilaram, e a presidente foi até lá fazer um discurso. Em meia hora, prometeu combater a inflação e a pobreza. Ah, tá, agora sim! Esse estilo "discreto" tem sido elogiado por contraste com Lula e porque ela seria mais "técnica", preocupada com méritos. Bem, alguns dias depois ela anunciou para a cúpula de Furnas mais um capanga de Edison Lobão e Sarney... E olha que ela fez carreira em Minas e Energia.

Por que não me ufano (3). Nunca fui adepto convicto da "nota fiscal paulista", porque acho que deveriam cortar impostos e não obrigar o cidadão a buscar sua devolução, o que supostamente estimularia a queda da sonegação. Mas o dinheiro é do contribuinte e, como em algumas ocasiões puseram meu CPF na nota, fui buscá-lo no site da Secretaria da Fazenda. Primeiro, descobri que haviam feito um cadastro com meu número, mas não com meu email, e tratei de recadastrar para ter a senha. Um mês depois, consegui o acesso ao meu saldo. Surpresa... Em 14 de outubro, haviam desviado mais de R$ 500 para uma ONG. Obviamente, sem minha autorização. Fui então informado de que preciso fazer boletim de ocorrência numa delegacia e procurar um posto da Fazenda para protocolar a denúncia.

A secretaria diz que já vinha sabendo do golpe desde novembro do ano passado, mas, curiosamente, só deu essa informação depois que a imprensa chegou com casos semelhantes e em seguida anunciou novas regras. Mas eu me pergunto se um pouco de inteligência não bastaria para ter visto que pegar um CPF alheio e cadastrá-lo com dados errados era fácil demais. E, se não encontrar os fraudadores, o poder público vai assumir a responsabilidade?

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