A recriação de um mito

A missão de Laila Garrin, que ganhou o papel para ser Elis ao cantar Fascinação

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 14h58

Uma série de workshops, com palestras e discussões, marca, a partir do dia 26, o início da produção de Elis – A Musical (título, aliás, sugerido por Nelson Motta). O trabalho para Laila Garrin, no entanto, começa antes: “Logo inicio uma preparação corporal para ganhar familiaridade com o gestual de Elis, que era muito específico, especialmente ao cantar”, confidencia.

Ela sabe do que fala – para a série de testes, Laila decidiu que não imitaria a cantora, o que seria temerário. “Preferi interpretar do meu jeito, a partir da minha história de vida e no teatro. Com isso, mostrei para os selecionadores uma Elis sob o meu ponto de vista”, disse ela, que só fez algumas pesquisas básicas, como baixar o tom de voz e evitar um tom mais nasalado. “Procurei também finalizar as frases como ela fazia. Venho me nutrindo desses detalhes.”

Durante as audições, Laila cantou Como Nossos Pais, Maria Maria, Vou Deitar e Rolar até, finalmente, chegar à decisiva Fascinação. Ao longo do processo de seleção, também interpretou cenas dramáticas, como as que geraram as separações de Elis. Sua performance impressionou a banca – Nelson Motta, por exemplo, disse que Laila se apropriou da essência da grande cantora.

Sutilezas sempre marcaram a carreira artística de Laila Garrin, moldada por grandes mestres. Em 2002, por exemplo, fez um estágio no Théâtre du Soleil, comandada por Arianne Mnouchkine. De volta ao Brasil no ano seguinte, trabalhou com grupos de sólida tradição dramática, como Luis Carlos Vasconcelos e Cacá Carvalho – com este, em São Paulo, participou das criações da Casa Laboratório, importante centro de experimentação e pesquisa teatral. Até que, em 2009, foi convidada pelo diretor João Falcão para ir ao Rio, participar da peça Eu Te Amo Mesmo Assim.

A mudança foi decisiva para sua carreira – afinal, se Cacá Carvalho ensinou-lhe a cantar pensando sempre na ação, com Falcão, descobriu a dramaticidade das letras das músicas. “Ele me fez olhar com outra perspectiva para canções da MPB, mesmo aquelas muito conhecidas. Passei a entendê-las de outra forma”, conta Laila, que voltou a trabalhar com Falcão no musical Gonzagão – A Lenda, inspirado na história do Rei do Baião, Luiz Gonzaga. Detalhe: ela era a única mulher em cena.

Sua trajetória cruzou com Nelson Motta, porém, por outros caminhos. Laila participou do Ipanema Lab, projeto do diretor musical Alexandre Elias, que a convidou para participar do primeiro CD do grupo, French Kiss Bossa Nova. O disco nasceu de um estímulo de Motta, que também convenceu Laila a participar das audições de Elis – A Musical e conhecer os profissionais com quem agora vai trabalhar.

A expectativa também é grande para o diretor Dennis Carvalho. Há três meses, quando foi convidado pela Aventura para dirigir o musical, ele não relutou. “Convivi com Elis em seus dois últimos anos de vida e, aos poucos, conheci sua força e também suas fraquezas”, conta ele, que tem uma boa metáfora para o desafio a ser enfrentado: “Dirigir um musical sobre a maior cantora do Brasil é como escalar a seleção brasileira de futebol: sempre vai ter alguém criticando a falta de alguma música e ou de algum fato”. Na audição, ele e a equipe criativa acompanharam mais de 300 candidatas ao papel e, além de Laila, outras duas foram escolhidas como substitutas diretas.

Apesar de ser uma unanimidade nacional, Elis enfrentava problemas de autoestima. Carvalho se lembra de vê-la contestando o título de maior cantora do Brasil ao dizer: “Como, se sou baixinha e quase vesga?” O diretor pretende focar esses momentos e outros mais grandiosos, como um bloco dedicado a Milton Nascimento, um dos amigos mais queridos de Elis. Não faltarão também seus problemas amorosos, como os casamentos com Ronaldo Bôscoli e César Camargo Mariano.

O espetáculo deverá contar com 23 canções, escolhidas de forma a completar a narrativa sobre a vida da cantora. “Vamos fazer uma homenagem a Elis e, para isso, sei que terei de ter humildade e muita coragem”, comenta Laila.

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