A reconquista da confiança perdida

É um privilégio que o repórter seja o primeiro a iniciar a série de entrevistas de David Fincher. Ele está em Londres, onde a distribuidora Sony reuniu jornalistas de todo o mundo para o lançamento internacional de Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. O filme de Fincher inicia a série de adaptações que Hollywood pretende fazer dos livros do sueco Stieg Larsson. Há outra série nórdica baseada nos mesmos livros e é no mínimo curioso que justamente hoje, quando estreia Millennium, a TV paga (o Cinemax, às 22 horas) esteja exibindo A Menina Que Brincava com Fogo, a segunda parte da trilogia produzida na Suécia.

O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2012 | 03h08

Fincher estava particularmente satisfeito com sua intérprete de Lisbeth Selander, a própria garota com a tatuagem do dragão. Mas não foi fácil bancar Rooney Mara. "O estúdio não estava convencido de que ela pudesse carregar o papel. Eu nunca tive dúvidas. Tivemos de provar a eles." Rooney está indicada para concorrer ao Oscar de melhor atriz. Embora determinada - sua personagem dava o fora em Mark Zuckerberg em A Rede Social -, ela parecia fisicamente frágil no longa anterior de Fincher. Rooney ressurge tatuada, durona e com frequência nua em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. "É uma garota como não se vê na produção A de Hollywood", ele avalia. Você pode comparar sua performance com a de Noomi Rapace no filme que a TV mostra à noite.

Mais uma história de serial killer? Após Seven - Os Sete Pecados Capitais e Zodíaco, Fincher ainda não se cansou? "O filme tem serial killer, mas não é sobre serial killer, e vai nisso uma diferença. Se fosse só outra história de caçada humana, estaria fora." O que lhe interessou no livro - e na adaptação de Steve Zaillian - foram os relacionamentos, ou o relacionamento entre o jornalista Michael Blomkvist e a investigadora Lisbeth Selander. Ele, interpretado por Daniel Craig, é um homem maduro, um jornalista responsável. Ela é uma garota. Sofreu abuso sexual, é bi. Maior que a diferença de idades, é a social. "São personagens que nunca deveriam ter se cruzado, mas que se encontram e mudam as respectivas vidas", ele explica.

O que motivou Fincher a fazer o filme foi a última cena do roteiro de Steve Zaillian - que você vai ter de ver o filme para saber como é. "Há ali uma maturidade muito grande de ambas as partes. E, para ela, é uma superação, o momento de ficar adulta." O repórter arrisca o tema de Millennium - a restauração da confiança. "Sim, é disso que se trata. A confiança já estava no centro de A Rede Social." A luz é magnífica e expressa outro tema do filme, o embate entre o sagrado e o profano, que também está em Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas (e A Árvore da Vida, de Terrence Malick). "A luz realmente possui essa dimensão metafórica, mas no começo era só a luz do inverno na Suécia, que também existe em certos filmes de (Ingmar) Bergman."

E a trilha? "Fiz muito videoclipe. Não queria um filme clipado, mas no qual a música tem íntima relação com a imagem. Não há uma música que não tenha sido pensada em relação com a trama. Em alguns casos, o timing e o mood (o clima) vêm da música." A direção de arte é fundamental. Um personagem decisivo habita uma casa de vidro, transparente. Vai nisso uma crítica ao mundo atual? "Uma falsa transparência? Com certeza. O podre, a doença social, está escondido no basement (o porão). Se você quiser dizer que é uma representação do mundo, a responsabilidade é sua", diz o diretor, rindo. Fincher pretende fazer Millennium 2, 3? "Fazer filmes é um processo demorado. Não gostaria de ficar preso ao projeto, mas de acompanhá-lo. Espero que o público também se interesse em seguir Michael e Lisbeth." / L.C.M.

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