A realidade pelo avesso, na alegoria

A presença da morte é marcante na ficção do mineiro Carlos de Brito e Mello, de 37 anos, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura, Portugal Telecom e Jabuti de 2010 pelo livro A Passagem Tensa dos Corpos. (Companhia das Letras). Prestes a entregar os originais de seu novo romance, A Cidade, O Inquisidor e os Ordinários à mesma editora, o autor concedeu uma entrevista ao Sabático, na qual revelou ter se livrado da "mais indesejável das gentes". A morte, garante, não é mais a protagonista da história, como em A Passagem Tensa dos Corpos.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2012 | 03h10

Se, no elogiado livro, ela é uma entidade alegórica que ronda a casa de um patriarca envenenado por um de seus familiares, aqui cede lugar a um inquisidor que investiga a vida dos cidadãos "ordinários". Ele é ao mesmo tempo juiz e algoz nesse pesadelo em que a noção de homem e cidadania cai por terra.

Há uma fixação na morte em seus dois livros. Em A Passagem Tensa dos Corpos, ela se manifesta já na evocação inicial a Lúcio Cardoso, outro mineiro que escreveu sobre o tema. Afinal, Minas Gerais é o território da morte na literatura brasileira?

É verdade. Esse universo cultural, muito próprio do interior do Estado de Minas Gerais, não é exatamente soturno, mas tem um certo clima de pesar que vem das festas populares religiosas. O livro deve muito ao clima sombrio de Crônica da Casa Assassinada, o que justifica a referência a Cardoso. Na verdade, eu costumava ter até certa implicância com essa redução do mineiro a um clichê. De qualquer maneira, há um modo de ser que corresponde, no livro de Cardoso, ao do interior mineiro, predominando um clima de luto.

A morte marca presença no novo livro?

Então, ela sai de cena. Estava com receio de me repetir. Além disso, as pessoas já se aproximavam de mim anunciando enterros na rua ao lado (risos). Se há alguma coisa que morre neste terceiro livro, A Cidade, O Inquisidor e os Ordinários, talvez seja certa noção do que é ser um homem, um cidadão. São essas denominações que começam a caducar no livro. Esses ordinários são figuras que não dão conta de sustentar as representações construídas acerca deles. Há como uma falência dessas denominações e o inquisidor seria um personagem que tenta recuperar isso. Ele vai atrás daqueles que considera infratores, hereges - não em relação a Deus, mas a um conjunto de referências do que era ser todas essas coisas há tempos. É menos a morte efetiva de um corpo físico e mais a de um universo de representação que perde o sentido.

Então, esses personagens são alegóricos, como a morte que espreita a família de A Passagem Tensa dos Corpos?

Quando percebi o caminho da narrativa, ela já tinha um tom alegórico, com os personagens entrando nela a serviço de suas denominações. Eles não têm nome nem endereços como nós temos.

Essa metaforização seria uma reação ou uma aversão ao realismo?

Não é uma posição de saída. Quando começo a escrever, essa direção já se impõe, não como oposição a um certo tipo de narrativa, incluindo a realista. Até comecei essa narrativa com referências realistas. A cidade seria mesmo Belo Horizonte, mas em algum momento isso me pareceu um tanto artificial. Era mais leal abandonar essas referências, mantendo uma outra.

No final de A Passagem Tensa dos Corpos, o narrador anuncia que vai parar de narrar, pois se prepara para entrar num corpo físico. Essa tentativa de incorporação não seria uma maneira de parar de nomear e admitir os limites da linguagem, à maneira da filosofia do austríaco Wittgenstein?

Não sou leitor direto de Wittgenstein, mas a maneira contundente como a linguagem ocupou certo debate chegou até mim pela leitura de Lacan, pois tenho formação psicanalítica. A incapacidade de a linguagem recobrir a experiência real me fascina. Gosto da exposição do fracasso da linguagem, pois sempre haverá uma zona de indeterminação, de incompletude. A morte estará sempre à espreita, porque é a linguagem que a carrega dentro de si.

Em A Passagem Tensa dos Corpos há um contraponto entre as observações minimalistas, telegráficas, como se fossem faits divers, colocadas ao lado de textos verborrágicos de um narrador que extrapola o uso da linguagem. Como é o estilo narrativo do novo livro?

Tive uma preocupação em A Passagem... de mostrar que essa entidade - talvez seja melhor não usar a palavra, pois o livro não tem nada de espírita - precisa da linguagem para ganhar um corpo, o que justifica essa verborragia. No novo romance, há uma diversidade maior de vozes e as intervenções são mais curtas. Não tenho maior interesse em trabalhar de uma maneira dissertativa.

Essa polifonia não atrapalha?

Existe o narrador principal, o inquisidor, que se serve de dois outros narradores. Quis garantir a onisciência desse narrador, mas também que vozes clandestinas, profanas, abusadas, perturbassem essa voz.

Em A Passagem..., a morte não aparece como oposição, mas complemento da vida, como diria Philippe Ariés. Assim, ela penetra transfigurada na intimidade dos personagens, testemunhando a sexualidade perturbada, necrófila, do garoto recluso em seu quarto. Como você trata o sexo no novo livro, como celebração vital ou culto funerário?

Estou me lembrando de determinados personagens para os quais a questão sexual é crítica. Não necessariamente por causa da prática sexual, mas talvez porque não sejam capazes ainda de dizer do que eles gostam. Acho que se fala mais de sexo do que efetivamente se faz. As pessoas transam das formas mais estranhas, particulares. Os corpos são deliciosamente usados das mais diversas maneiras, mas não sei se isso é feito com grau desejável de liberdade e autonomia. Talvez sobre culpa demais. Acho que o crossdressing do cartunista Laerte é uma aparição política exemplar, pois ele mostra que talvez sejamos todos "montados" como homens e mulheres. Afinal, não nascemos com essa determinação, que vem da cultura. Quando Laerte se veste de mulher, ele tensiona isso num nível que é de uma perturbação subjetiva e política.

Quais são seus mitos?

Tenho tentado não recorrer à crença religiosa, ainda que em algum momento eu possa vir a ser presenteado com o reencontro. Considero muito aquilo que é da ordem da pequena e valiosíssima construção humana dos meus pais, essa nossa capacidade ordinária de construir sentidos para nós mesmos. Já fui mais exigente. Tenho tentado ser mais realista. Minha mãe morreu em janeiro e, no hospital, ela me disse: "Quando acontecer o amor, se apresente." Gostei dessa ideia de me apresentar às coisas desejadas, aos encontros transformadores, de uma maneira mais leve, sem contar com nenhuma transcendência.

Edgar Allan Poe parece uma presença permanente em sua literatura, um doppelgänger do qual não consegue se livrar. O que Poe significa para você?

Você tocou num autor que é também outra referência. Lúcio Cardoso era o fantasma de minha predileção quando comecei a escrever A Passagem Tensa dos Corpos. Eu não tinha consciência de que Poe fosse aparecer, mas ele apareceu. Poe não é assombrado por uma coisa que vem de fora, mas por algo que vem de dentro. É aí que me identifico com Poe, pois meus terrores são todos internos.

Além de escritor você é artista, fazendo até mesmo parte de um grupo de intervenção urbana, o que é inimaginável para um tipo não exatamente extrovertido. Isso é uma forma de violentação?

(Rindo) Pois é, talvez seja. Fiz parte do coletivo Xepa, mas no ano passado viajei com minha mulher para a Índia e o Nepal e acabei me distanciando.

Conte uma intervenção urbana da qual participou.

Essa intervenção (Edificação e Queda dos Corpos) foi feita no Recife. Compramos 10 mil tijolos e descarregamos no centro. A ideia era erguer uma parede até seu ponto máximo de tensão, até que caísse. Era um espaço de passagem, numa praça, em frente a uma igreja. Aconteceram coisas muito engraçadas, como um pedreiro tentando nos ensinar como construir uma parede mais sólida, ou transeuntes revoltados por estarmos bloqueando sua rota de trabalho.

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