A realidade, mas sem realismo

Uma Morte em Família, de James Agee, retrata o Tennessee racista do início do século 20

Paulo Roberto Pires,

04 de maio de 2012 | 23h46

Em 1955, no táxi a caminho do médico, James Rufus Agee morreu fulminado por um enfarte. O crítico de cinema que marcara época na The Nation tinha 45 anos e um coração chumbado. Como muitos de sua geração, era um biriteiro da pesada. E, como poucos contemporâneos, deixou uma obra fundamental e espantosa por sua contundência e concisão.

Agee não viveu, portanto, para ver transformado em clássico Elogiemos os Homens Ilustres, que fez em parceria com o fotógrafo Walker Evans: recusada pela Fortune, revista que a encomendou, a reportagem-emblema do chamado jornalismo literário foi publicada em livro em 1941 e resultou em seu tempo num consistente encalhe. Tampouco pôde testemunhar a consagração crítica e popular de Uma Morte em Família, romance autobiográfico que deixou inacabado e ganhou o Pulitzer de 1958.

Publicado pela primeira vez no Brasil em 1961 - com tradução de Neil Ribeiro da Silva e batizado Morte na Família - o livro ganha de Caetano W. Galindo uma versão mais sintonizada com as invenções de narrativa e linguagem de Agee. No encomiástico ensaio que publicou na New Yorker em 1957, Dwight Macdonald destacava a qualidade do autor que lhe parecia mais pronunciada: “Ele tinha o olho do poeta para o detalhe, o ouvido do poeta para o fraseado.”

A definição é perfeita. Agee prezava a realidade, o que fez dele um grande jornalista, mas não dava a mínima para o realismo, o que o distinguiu como escritor. Poeta de primeira hora que, como tantos outros, viu no surrealismo um caminho para conciliar forma e fundo revolucionários, tornou-se um repórter sem convicção da objetividade, como dá testemunho o intricado Elogiemos os Homens Ilustres. E, mais tarde, um ficcionista que resiste às tentações do psicologismo e do confessional mesmo tendo como matéria-prima a própria vida.

Uma Morte em Família é o retrato oblíquo de um mundo e de um evento que o destrói. Basicamente, conta como Rufus, o menino de 6 anos do qual Agee não escamoteia o próprio nome, vivencia a morte de Jay Follett, seu pai, em um acidente de carro. Há a mãe e a irmã menor, os avós despossuídos e os bem-nascidos, a tia velha, o tio jovem. Pouco se diz, muito se insinua e, nas brechas destas relações vai surgindo um pesado retrato do Tennessee racista no início do século passado e, de forma torturada, as vacilações da fé cristã familiar.

O narrador em terceira pessoa alterna-se com diálogos que muitas vezes são mais eloquentes pelas marcas de linguagem que trazem do que propriamente pelo que dizem. A velha empregada negra, o capiau que testemunha o acidente, o tatibitate das crianças ou a formalidade da família de Mary, a mãe, são parte tão importante da trama quanto as descrições idílicas de ambientes, a livre associação de ideias e a mistura, às vezes confusa, de pontos de vista. No centro de tudo, a terrível solidão de Rufus diante dos trincados laços de família e da consciência dolorosa da ausência do homem que adorava.

Ainda que sem prejuízo para a leitura, sempre emocionante, as circunstâncias que cercaram a publicação de Uma Morte em Família não podem ser ignoradas. Uma “nota do editor” não assinada informa o leitor de que o texto que se segue está “exatamente” como Agee o escreveu. Mas poucas linhas depois se contradiz: há cortes, montagens de trechos não localizados e um acréscimo importante - “Knoxville: verão de 1915”, uma espécie de prólogo, “não fazia parte do manuscrito”.

A “mão invisível” da edição tem nome e sobrenome: David McDowell, experiente editor que por Agee nutria uma amizade devotada a ponto de ser nomeado, pela família, administrador do espólio. O que lhe deu poderes para tratar desde direitos autorais até a forma final destes originais. A história é narrada em detalhes que pouco importam aqui pelo professor americano Hugh Davis em The Making of James Agee.

Enfronhado nos meios intelectuais nova-iorquinos, McDowell comandou uma operação editorial, no mínimo, curiosa. Em roteiros e anotações, Agee teria ressaltado a importância de Uma Morte em Família respeitar cronologia e linearidade, pois sua intenção era aproximar o leitor da lenta e difícil construção da relação entre pai e filho para ressaltar melhor o impacto da perda.

Em uma estratégia sutil, McDowell buscou tornar o texto “mais palatável” ao aproximá-lo não do público médio, mas da crítica culta. Interessava a ele, argumenta Davis, fazer daquele Agee atípico um Agee mais parecido com o inventor radical e o outsider intelectual.

A superlativa resenha de Dwight Macdonald - que, como editor da Partisan Review, publicou o tal prólogo - seria um dos melhores indícios de que a estratégia foi bem-sucedida. Afinal, terminou suscitando um dos raros Pulitzer póstumos e tudo o que do prêmio pode advir - o livro tornou-se popular, foi adaptado para a Broadway e, do teatro para o cinema no filme All the Way Home, (A volta para o Adeus) dirigido por Alex Segal em 1963.

Em 2007, Michael Lofaro, professor da Universidade do Tennessee, lançou uma edição que “restaura” o texto de acordo com as orientações literais dos cadernos de Agee, acrescentando materiais descartados e até modificando a abertura do livro. A Library of America, edição canônica do que de melhor há na literatura americana, prefere no entanto a versão que aqui se publica agora.

A discussão é longa e, na prática, pouco proveitosa. James Agee sobrevive como escritor a despeito das comprovadas traições de McDowell ou da fidelidade presumida de Lofaro. Talvez porque seja difícil, quase impossível, “melhorar” ou “estragar” autores de tamanha força e originalidade.

PAULO ROBERTO PIRES É AUTOR DE SE UM DE NÓS DOIS MORRER (ALFAGUARA) E EDITOR 

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