A razão do futebol

Quando algumas pessoas que só acompanham meu trabalho como jornalista cultural sabem que admiro, pratico e comento futebol, isso sem falar de quando declaro o time para o qual torço, soltam frases como "Isso não é importante", "Que perda de tempo" ou "Todo mundo tem seu lado irracional". São frases engraçadamente preconceituosas. Sugerem que os livros e as artes são sempre importantes, nunca desperdiçam nosso tempo e agem como veículos da nossa razão. E está claro que não é assim... E sugerem, por outro lado, que do futebol nada se aprende. Bem, muitos intelectuais aprenderam dele, como de outros esportes, e eu digo sempre que o futebol me ensinou mais sobre o Brasil do que muitos livros de história. Também me ensinou sobre a natureza humana.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2010 | 00h00

Concordo que o futebol não é "importante"; mais ainda, que as pessoas lhe dão muita importância, desde o torcedor que briga com a mulher ou com o vizinho porque o time perdeu até o professor que decide defender a tese de que um time de 11 marmanjos de calções serve como modelo para o que uma nação deve fazer com sua economia, educação, etc. Mas o futebol tem importância por não ser importante nesse sentido, ou seja, por mexer com outras dimensões da nossa natureza, como o instinto de competição física e a inclinação para o ritual simbólico. Como ao ler as lendas da mitologia ou os romances de aventura, projetamos no futebol um gosto pela façanha, uma curiosidade sobre o limite. Viver é mover.

Se 2 bilhões de pessoas param para ver uma final de Copa do Mundo, um observador cultural não pode ficar indiferente a isso. Logo, ver algo que me dá prazer como simulação de nossas possibilidades motoras e lúdicas e, de quebra, ainda me dá "food for thought", material para reflexão sobre os valores da minha sociedade e das outras, não precisa ser perda de tempo. Camus disse que tinha aprendido tudo sobre a moralidade humana jogando futebol. (Como era goleiro, a solidão aguda de livros como O Estrangeiro e A Peste fica então explicada.) Um esporte como o futebol, menos previsível por lidar com a imprecisão e força dos pés, envolve tensões, dilemas entre ser individualista e altruísta, capacidade de cumprir papéis ou, ao descumprir, revelar papéis inesperados.

Sobre o lado irracional, uma das coisas que o futebol mostra é que racionalidade e irracionalidade não são duas instâncias lado a lado, mas que se mesclam e muitas vezes com resultados positivos. O que Pelé fazia em campo podia partir de uma memória corporal vinda desde as brincadeiras de infância ? e quantos prazeres da vida não têm a mesma relação com o jogo? ? e, no entanto, era produto de um trabalho mental, consciente, forjado em tentativa e erro, repetidas vezes. O craque não é o que faz isso ou aquilo com a bola; é o que pensa mais rápido e, assim, aplica o que faz com a bola dentro da narrativa da partida. Como nas artes, na política ou na paquera, o grande segredo mora no "timing". É preciso ensaiar até para não fazer em campo apenas as jogadas ensaiadas.

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Um dos livros que há para escrever é sobre a "reinvenção do Brasil" que o governo Getúlio Vargas tentou fazer. Afinal, muitos dos vértices da identidade moderna brasileira se fixaram naquele momento, como o samba (vide o samba-exaltação de Ary Barroso), o carnaval de rua, o elogio da mestiçagem (como em Gilberto Freyre e Oswald de Andrade, que aliás não se davam bem) e, claro, o futebol (até as telenovelas derivam daquele tempo, marcado pelas radionovelas). E se fixaram com vícios dessa formação, isto é, com a maneira como o Estado lidou politicamente com tais tendências emergidas da sociedade. No caso do futebol, Vargas não era fã, mas tratou logo de estimulá-lo e, quando a seleção embarcou para a Copa de 38, fez discurso na rádio. Lourival Fontes, seu "comissário" para propaganda, é um personagem a investigar a fundo, pois foi quem moldou para Vargas essa apropriação cultural.

Coincidindo com a modernização brasileira ? com a industrialização e urbanização dos anos GV aos anos JK ?, o futebol se amarrou à autoimagem do País para sempre. Com o surgimento consagrador de Pelé na Copa de 58, que compensou o trauma de 1950 (assim como o presidente "bossa nova" JK tirou a uruca do suicídio de GV), essa identificação entre a sociedade e o futebol pareceu estar provada e aprovada, e os grandes cronistas dessa fase épica foram Mario Filho e seu irmão, Nelson Rodrigues, um jornalista e nosso maior dramaturgo. O problema é que desde então o pensamento a esse respeito não amadureceu com a sociedade. A fase de autoafirmação, sendo uma fase, como a adolescência (e adolescente que não se afirma será afirmado pelos outros), continua se estendendo até hoje. Isso é claro na maneira passional, na gangorra emocional, com que se trata de futebol. Você vai dizer que "é assim no mundo todo". Só que há limites, para não falar do interesse dividido com outros esportes e temas; e mesmo assim acho que vale para qualquer país a proposta de que se deixe de encarar eventos esportivos como Copa e Olimpíada como questões de honra nacional.

E cada nação tem seus tipos de exagero. A mídia usa os ídolos e os eventos para comover a população com emoções fortes e ideias pobres. Pode ver que na véspera de toda Copa ela embarca num patriotismo tão desproporcional quanto o de Dunga e Jorginho, usando os clichês sobre "a ginga" como se justificasse o malfadado "jeitinho". Depois, caso a conquista não venha, sai apontando os culpados mais convenientes, mesmo que a escolha ofenda qualquer pessoa que conheça um pouco de futebol e, portanto, não aceite que a seleção nunca seja vencida por um adversário melhor, apenas por si mesma. Caso a seleção não falhe, inclusive contra a maioria das opiniões, a mídia trata logo de fingir que não disse o que disse. Pior, a torcida vai junto, repetindo sem pensar o que escutam.

Por trás da polêmica entre futebol-arte e futebol-força, entre poesia e prosa, entre estilo sul-americano e estilo europeu ? uma polêmica invariavelmente contaminada por generalizações incorretas, sem sutileza alguma ?, aparecem sempre posições a respeito da nação. Tudo vira ideologia, política, discurso. A grande maioria dos comentaristas não percebeu a grandeza da geração de Romário e Ronaldo porque não se sente à vontade com o futebol atual, globalizado, altamente lucrativo, e os condenou porque seriam estrelas egocêntricas e "objetivos demais" (na expressão de Armando Nogueira), enquanto o mundo os exaltava por unir beleza e eficácia, forma e função, inteligência e velocidade.

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Li nesta semana dois artigos publicados na imprensa brasileira por intelectuais estrangeiros, dois historiadores que, ao contrário de quase todos seus colegas brasileiros, não estão interessados em usar o futebol para pregar nacionalismo. Ian Buruma vai contra essa noção tola de que nos esportes o que vale é a paz e não a vitória. Qualquer um que já tenha jogado a sério, ou mesmo uma pelada entre amigos, sabe que o ambiente em um campo não é nada relaxado. E que, por isso mesmo, o futebol desperta violências, a estupidez dos que não sabem distinguir as estações e lidar com seus sentimentos. Mas Buruma diz que é também esse o motivo pelo qual o futebol tem valor, pelo poder de desviar impulsos básicos. Se houve uma só lição no século 20, e o futebol é uma expressão do século 20, foi a de que a barbárie está dentro de nós. O civilizado é igual ao bárbaro quando se julga imune a ela.

O outro artigo, de Kenneth Maxwell, é sobre a força do futebol mundo afora. Na África do Sul, de onde escrevo esta coluna, ele vem ganhando cada vez mais torcedores, embora o rúgbi seja mais forte entre brancos e negros. Maxwell nota que apenas EUA e, ironicamente, Cuba e Venezuela não cultivam o ludopédio. Na verdade, na Índia só se fala de críquete e ainda falta muito para o futebol ser popular na China e Oceania. Mas é o esporte mais disseminado do planeta, e a Copa é sua síntese cênica. Você pode não gostar, mas não pode ignorar ? nem tratar todos que gostam como meros alienados, desocupados ou irracionais. Apesar dos fanáticos.

Por que não me ufano (1). Boa parte dos problemas que o presidente Lula causa a si próprio seriam evitados se ele se expressasse melhor. Sei que os lulistas o consideram o rei da comunicação de massa, mas, quando ele reage às sanções da ONU contra o Irã dizendo que foram "por birra", perde mais alguns pontos na cotação mundial. Se bem que, nesse caso, os pontos já estavam perdidos. A maioria dos países sérios foi contra o acordo de Brasil e Turquia com o ditador Ahmadinejad pelo simples fato de que ele não dá garantias de que seu programa nuclear é meramente energético. Enquanto isso, Obama dá dinheiro para as forças institucionais da Palestina, em vez de cair no jogo violento entre Israel e rebeldes. Usar termos como "birra" é que é coisa de criança.

Por que não me ufano (2). Um leitor do blog, depois de ler meu texto da semana passada, quis saber por que a carga tributária tão alta (e já pagamos R$ 500 bilhões neste ano, não os R$ 200 bilhões que escrevi) não afeta a popularidade dos governos. É justamente porque a economia cresce em ritmo veloz, como se viu nesta semana; mas isso não significa que um novo governo não tenha de prestar muita atenção àquela demanda, até para consolidar esse ritmo. E os mesmos ou melhores resultados poderiam ter sido obtidos com carga de impostos mais enxuta e democrática. A agenda estabilidade & assistência, de FHC e Lula, tem limite. Se o Brasil não olhar para o que falta fazer, a fatura logo vai aparecer.

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