Marcos Correa/PR/AFP
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A raiz do mal

Torpe submissão aos interesses de um lunático resultou na morte de 300 mil brasileiros

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2021 | 03h00

Bolsonaro quase me matou em 5 de outubro de 2018.

A dois dias do primeiro turno das eleições presidenciais, bastante tenso com a possibilidade de o candidato da extrema-direita vencer os dois turnos, tive um enfarte agudo do miocárdio. 

Aos amigos e ao colunista Ancelmo Góis, de O Globo, esclareci que sofrera, na verdade, um “bolsonaro agudo do miocárdio”. Ninguém contestou, nem duvidou. Uma semana e três stents depois, já estava em casa, pronto para o segundo turno, cujo trágico desfecho, felizmente, não me levou de volta ao hospital. 

A simples ideia de ouvir “o presidente Jair Bolsonaro” desafiava minhas coronárias e alentava minha crença na Primeira Lei de Murphy. Se algo pode dar errado, certo não dará. 

Imaginar na presidência da República aquele deputado do baixo clero, inapto, demagogo, fanfarrão, que nada de útil ou relevante fizera em quase três décadas de politicagem, era algo que me soava tão absurdo e inimaginável quanto William Bonner noticiar que Trump restaurara a monarquia nos EUA e agora era rei, ou que Fernanda Montenegro aceitara participar do próximo BBB. 

Parecia-me então que, tão ou mais duro do que metabolizar a presença do ex-paraquedista na presidência, seria vê-lo a toda hora na TV, a proferir asneiras com aquela inflexão vulgar de chefe de torcida de futebol: a fala em staccato para disfarçar a espessa ignorância, o tatibitate de um espírito tosco, inteiramente despreparado para o cargo a que o oportunismo político e a insensatez de um eleitorado ressentido e envenenado por distorções e mentiras das mídias sociais haviam conduzido. 

Ao menos para mim, foi mais duro, sim. E muito pior ficou depois que ele a seu vastíssimo currículo de defeitos – não sendo a maneira de falar e a compulsão para a mentira os menos nocivos de todos – acrescentou uma sádica propensão ao extermínio de pessoas indesejadas. 

Bem antes de tornar-se réu em potencial do Tribunal de Haia, acusado de genocídio e ecocídio, Bolsonaro, ainda deputado, já defendia a esterilização em massa de pobres, por uma perspectiva malthusiana jeca: “É gente demais! Não tem mais lugar para deitar na praia!”, discursou, em 5 de agosto de 2010. 

Depois, como também está registrado em vídeo – e façamos aqui um brinde à implacabilidade da internet –, ameaçou mergulhar o País numa guerra civil, para matar, no mínimo, umas 30 mil pessoas. 

Era só o trailer do filme. 

Entre os cabras por ele marcados para morrer estava o mesmo FHC que há dias não apenas reiterou sua rejeição ao impeachment como avaliou Bolsonaro “mais competente que a Dilma” em lidar com os interesses que o seguram no poder; embora infinitamente menos passível de uma punição parlamentar, faltou ressaltar, mas ressalto eu, contornando, par delicatessen, a palavra “golpe”, por sinal já admitida até por seu maior beneficiário, Michel Temer. 

Afinal, o que foram as “pedaladas fiscais” da Dilma comparadas aos estragos promovidos, em todas as instâncias e gradações, pelo capitão, em 28 meses de disfunção administrativa? E nem estou incluindo nesse passivo as 300 mil mortes por covid por ele estimuladas de várias formas – ininterruptamente. 

300 mil! Dez vezes mais mortes do que os assassinatos prometidos por sua guerra civil. 

Nada disso (ou pelo menos em tais proporções) teria acontecido se Bolsonaro tivesse sido cassado quando pela primeira vez, ainda como deputado, exaltou da tribuna da Câmara o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o Dr. Tibiriçá das masmorras da ditadura militar e seu mais notório torturador. Ou se, também por falta de decoro parlamentar, tivessem-no punido com o devido rigor por hostilizar, de corpo presente, o Palácio do Planalto como “uma pocilga”, cheia de porcos “com faixa presidencial e broche de ministro de Estado, zombando, debochando do povo brasileiro”. 

O mais grave senão da carta-manifesto de economistas e banqueiros, divulgada esta semana, com críticas às ações de Bolsonaro no enfrentamento da pandemia, à parte a necessidade de sua elaboração (a elite econômica precisando defender a adoção de medidas de saúde pública!), foi não exigir, explicitamente, que o presidente fosse afastado, para o bem do Brasil. 

Bolsonaro é o núcleo, o eixo, a medula, o epicentro, a célula-mãe de toda a crise sanitária, diplomática, econômica, moral e cultural instalada no País, o teimoso fiador das nulidades, dos robôs e sabujos que escalou em seus ministérios, dos quais só passou a abrir mão com menor resistência depois que seu governo começou a afundar inexoravelmente. Inútil trocar ministros e deixar o capitão fazendo prevalecer, sempre, a sua vontade, as suas doentias e obtusas certezas e as de sua prole delinquente, abduzida pelo olavismo e os delírios nível Lex Luthor de Steve Bannon. É preciso cortar o mal pela raiz.

Em seu comentário da última terça-feira, no YouTube, o jornalista Bob Fernandes revelou como o governo Bolsonaro, transviado pelo chanceler olavista Ernesto Araújo, entubou as pressões de Trump para não comprarmos a vacina russa Sputnik e medicamentos afins da China, Venezuela e outros “países mal-intencionados”, na visão Guerra Fria do trumpismo. 

Essa torpe submissão aos interesses de um lunático que já deixou a Casa Branca resultou na morte de milhares de brasileiros e pode ser comprovada no Relatório de 2020 do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA. 

Afastado o Genocida, seus ministros irão para o vinagre. Aí zeramos a fita e tentaremos salvar o que ainda é possível. Não é só o que o Brasil precisa e espera, mas o que o mundo também espera, para não ser contaminado. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

 

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