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A raiva como máscara

O ser raivoso é, sempre, um indivíduo machucado e frágil. A ira sempre diz muito de mim

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

20 de novembro de 2019 | 03h00

Uma experiência recente me fez pensar o tema da raiva. A palavra vulgar, o gesto brusco (bater uma porta), o olhar duro: são, muitas vezes, fruto de uma discussão tensa. Claro, deveriam ser evitados, porém eu, como tantas leitoras e tantos leitores, acuso culpa no quesito raiva e dureza com outras pessoas.

A ira é um pecado capital e ela me atinge muito. Não justifico, todavia explico: há temperamentos que precisam lutar mais contra a raiva. O meu é um deles. Já foi pior. Anos de terapia, toneladas de livros, reflexões e orientações: hoje consigo identificar mais rápido os gatilhos que ligam o botão da fúria. Bem provavelmente, a idade tem feito mais pela minha sabedoria do que os textos sobre “tranquilidade da alma”. De alguma forma, é o “estoicismo” da maturidade. Não sei se aumenta a nossa calma ou se diminui a importância do mundo ao redor (ou até a percepção dele). 

Os mecanismos que disparam a raiva são variados e têm relação complexa com o momento vivido. Em outras palavras, o fato que está acontecendo naquele instante e que parece ser o detonador da crise pode ser apenas uma fina casca a envolver coisas maiores. Querem um exemplo? Não conheço pessoalmente nem a ex-presidente Dilma nem o presidente Bolsonaro. Minha reflexão é sobre um aspecto que vejo em ambos, sem nenhuma conotação aqui de julgamento político ou de valor. Ambos, quando falam em público, parecem cerrar um pouco a boca, a fala fica dura, o olhar agressivo por vezes. Suponho, sem conhecer de fato, que sejam pessoas para quem a fala em público seja um desafio. Isso vale para muita gente. A mão se crispa, o lábio por vezes é mordido, o olhar busca um ponto neutro sem encarar as pessoas: haveria aí indícios de um desafio que incomoda os dois. Pela minha experiência, lutando com fortes questões interiores, o resultado é que Dilma e Bolsonaro falam contraídos e, muitas vezes, tudo soa de forma agressiva. É um mecanismo de defesa. Deve ser muito árduo para ambos. Compare-se com pessoas de perfil tão distinto do passado, como Carlos Lacerda ou Getúlio, e veremos a diferença. Ali existiam pessoas diluídas e até com afeto pelo palanque e pela exposição pública.

Quando eu vejo nosso atual presidente e nossa ex-presidente falando, sempre penso no jovem aluno apresentando seminário: o nervosismo assume a máscara da dureza. Afinal, o mundo respeita mais gente agressiva do que tímida. Sempre é um conforto aquilo que W. Reich chamou de “couraça muscular”, uma atitude física que responde a uma questão psíquica. 

A ira é um recurso político, claro. Mesmo entre pessoas não tímidas, ela pode ser usada para demonstrar firmeza. Socos no ar, frases duras, olhar firme: há quem veja na retórica da raiva um gesto de ação afirmativa e espírito reto. Em um país com nosso passado, brandir o chicote do feitor com cara violenta tem seu apelo de memória trágica. 

Um determinado modelo de masculinidade construído ao longo de muito tempo também identifica na dureza ríspida um gesto de “macheza”. Negociação, paciência, tolerância ou diplomacia parecem diminuir a testosterona do portador. Curioso que, ao identificar alguém sábio e equilibrado, indiferente ao mundo violento, equilibrado e calmo, o brasileiro tenha criado a expressão “sangue de barata”, algo que não é um elogio. 

O ser raivoso é, sempre, um indivíduo machucado e frágil. A denegação da dor, da inferiorização, do narciso machucado ou da inferioridade gera o gesto oposto. É sempre importante ressaltar: disfarçar dores internas com raiva e “pose” funciona como a peruca do homem careca: ao invés de disfarçar atrai toda atenção para a questão que incomoda. 

Tenho trabalhado comigo o desafio da tranquilidade. Sair do autocentramento e entender que sim, eu estou atrasado para chegar a um evento, mas a pessoa que quer uma foto não sabe disso e ela me parou por afeto, não por ódio. Estou no avião escutando, em quase êxtase, o Glória de Vivaldi. Na minha mão, um soneto de Shakespeare que leio e releio emocionado. A beleza se fecha sobre mim e sou levado ao paraíso. Nisso, alguém chega e pede que eu tire o fone de ouvido, interrompa a leitura, pare de fruir a beleza e... faça parte de uma selfie. Bem, é o humano se manifestando, ora em Vivaldi e ora em um fã. É sábio entender que eu possa ser uma Eurídice da mitologia quase vendo a luz do sol e, de repente, puxado de volta ao mundo de Hades

A raiva é um medo e uma máscara. Ela sempre diz muito de mim. Se tivéssemos essa consciência, interromperíamos, envergonhados, nossos acessos de raiva. “Eu já disse cem vezes que não quero assim” significa que minha importância é menor do que eu supunha; “esse cara me cortou” é sinal de que nem meu carrão foi suficiente para impor o respeito pelo qual suspiro dolorido; e, sob a frase de que “você não me escuta”, existe a desconfiança de que o que eu digo, de fato, é irrelevante. De todas as máscaras humanas, a raiva é a mais transparente e autoiluminada e, como tal, faz efeito oposto ao desejado. 

Para os budistas, a raiva indica um apego ao eu. Para cristãos, falta de humildade. Para os filósofos estoicos, é sinal de incapacidade de perceber as coisas como são. A quem pertence sua paz? É preciso atingir a serenidade, e isso só é possível com muita esperança. 

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