Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

'A quinta sinfonia revela um Mahler vulnerável'

Regente titular da Osesp a partir do ano que vem, a maestrina norte- americana fala sobre obra que rege de hoje até sábado na Sala São Paulo

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2011 | 00h00

Na entrevista a seguir, concedida após o primeiro dia de ensaios com a Osesp, no fim da tarde de terça-feira, a maestrina Marin Alsop fala do reencontro com a orquestra, da Sinfonia n.º 5, de Mahler, e relembra o contato com Leonard Bernstein, seu professor.

Até pela utilização da obra no cinema, a Sinfonia nº 5 tem status diferente entre as obras do compositor. Como definiria sua importância?

De certa forma, todas as sinfonias de Mahler são únicas, têm características próprias. A Quinta, especificamente, me parece um ponto de evolução em termos da orquestração, por exemplo. Mas significa também, e isso talvez seja mais importante, um desvio, um novo caminho do ponto de vista pessoal. Ele acabara de conhecer Alma, com quem se casaria, e revela de certa forma um lado mais humano, íntimo mesmo. É um novo insight, o de um Mahler vulnerável, o que fica evidente no Adagietto. A própria estrutura da obra sugere isso. Depois de movimentos conflituosos, o Adagietto traz um novo sentimento; e, depois dele, tudo parece menos pesado.

O casamento de Mahler com Alma, mulher fascinante que é um dos grandes personagens da Viena da virada do século 19 para o 20; seu trabalho como regente; a conversão do judaísmo para o cristianismo; o caráter fin-de-siècle de sua obra; o encontro com Freud. Há muitos elementos que explicam a formação do mito Mahler. Isso teria colocado a música em segundo plano?

É algo que sempre me pergunto, e não apenas com relação a Mahler. Eu consigo ouvir a Eroica de Beethoven sem pensar em Napoleão, em nenhum dos episódios que inspiraram a obra. Mas não sei se consigo fazer isso com Mahler. É uma questão complicada, a relação entre criador e criação. Mas, no caso de Mahler, há algo específico, que é a época em que ele viveu, a passagem do século 19 para o 20, as imensas transformações pelas quais o mundo estava passando. Mahler não teria sido Mahler se tivesse nascido em outra época.

A ideia de Mahler como símbolo das transformações da passagem do século 19 para o 20 explicaria a importância cada vez maior que sua música ganhou na passagem do século 20 para o 21?

Eu acredito que sim. Esses momentos são realmente complicados e sua música, ainda que não resolva questões, carrega em si a dúvida, o questionamento, que marca esses períodos.

A senhora estudou com Leonard Bernstein, que foi um dos grandes responsáveis pelo resgate da obra de Mahler a partir dos anos 60. Que lembrança tem da relação que ele mantinha com a obra do compositor?

Conhecer Bernstein revelou algo muito forte. Não seria exagero dizer que ele acreditava de alguma forma ser mesmo a reencarnação de Mahler. Havia muitos elementos em comum: os dois eram grandes regentes, compositores, tinham personalidades conflituosas, eram supersticiosos, compartilhavam a origem judaica, a religião era uma questão delicada. Ele sentia essas semelhanças de maneira muito forte, acreditava, ao reger, estar possuído de alguma forma. Acho suas gravações do final da vida excessivas, exageradas, levadas ao extremo. Mas sempre compreendi o que ele queria, havia uma coerência muito grande.

A senhora gravou ciclos completos de Brahms e Dvorak com orquestras como a Sinfônica de Baltimore. Considera fazer o mesmo com Mahler?

Uma integral mahleriana me parece algo tão gigantesco! Mas ainda assim a ideia me atrai. Gravei a Sinfonia nº 1 em Baltimore, mas não sei se haverá continuidade. Quem sabe não fazemos isso aqui em São Paulo?

Em seu concerto com a Osesp no ano passado, a senhora regeu a Sétima de Mahler. Como foi o reencontrar o grupo, agora como titular?

Foi ótimo, posso dizer que tudo está bem. Com relação a Mahler, foi uma coincidência. Juro que também sei reger outras coisas (risos).

A senhora abre o programa com Short Ride in a Fast Machine, de John Adams. Poderia falar da peça?

É interessante as duas obras estarem juntas. O Adams é curto, algo como um "Oi", enquanto a Quinta seria "Oi, muito prazer, deixa eu te contar minha história de vida".

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