A questão de fundo

Tropa de Elite 2 não é apenas a continuação do antecessor; é também sua desconstrução. José Padilha parece ter feito uma coisa rara entre criadores brasileiros e dado ouvido às críticas que não caíram nem na exaltação emotiva do filme nem em sua rejeição como "fascista". No primeiro Tropa de Elite, o capitão Nascimento (Wagner Moura) jamais é contestado a sério e, apesar do estresse que o faz pensar em desistir de tudo, jamais contesta a si mesmo, seguro de que o Bope é incorruptível e tem a solução nas mãos e armas. Agora no segundo filme, já tenente-coronel, trabalhando na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, ele é contestado da primeira à última cena: contestado por seu filho, por sua ex-mulher, pelo atual marido dela, por ex-companheiros do Bope como Matias, etc. E se vê obrigado a rever seus conceitos, sobretudo a crença no grupo que treinou como um bando de Rambos e a redução do problema das drogas ao consumo de burgueses.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

O filme é menos acelerado, embora continue sendo um filme de ação, e a narração em off de Nascimento - que no primeiro seria de Matias, até que as pesquisas prévias mostraram que o personagem mais forte era o de Moura - é mais expositiva e reflexiva, não mais um mero apoio às imagens. Em vez de incitar a polarização como no filme anterior, entre os que acham que a violência se combate com a violência e os que acham que ela é apenas "uma questão social", desta vez o roteiro contempla graduações. Numa cena no começo, depois de sua equipe invadir Bangu 1 com a truculência habitual, o coronel é aplaudido num restaurante, obrigando as autoridades a ficarem do seu lado, e o off diz que "o povo pensa que bandido bom é bandido morto", como se explicasse os aplausos da plateia às torturas feitas por Nascimento no primeiro filme - o que não elimina o fato de que o enredo endossava a atitude.

Aqui surge a principal ressalva ao segundo filme: embora afaste e até ironize as reações passionais ao anterior, retirando boa dose do caráter heroico de Nascimento, ele o faz alegando que o crime organizado mudou nesse espaço de tempo. O "sistema" agora se baseia em milícias, em supostos protetores "comunitários" que participam da vida das favelas e arrecadam dinheiro não só das drogas; e isso faz Nascimento entender que a solução do Bope - o extermínio de traficantes - já não dá conta da realidade. Não se trata mais de uma guerra territorial, e sim política. Ok, é verdade que em governos como o atual, de Sérgio Cabral, a ênfase é outra, mais paternalista e midiática, mas daí a sugerir que não tinha nada disso antes, quando o Bope sabia o que fazer, vai boa distância. De qualquer modo, podemos conceder que Nascimento precisou desses anos de setor público para entender os limites do seu método.

Essa alegação cronológica levou o filme não apenas a ser menos chocante, mas também a assumir um tom didático, no off e nos diálogos - principalmente quando o deputado Fraga fala em palestras ou na Assembleia -, que fica excessivo e, no final, quase panfletário. Ao mesmo tempo, há clichês de filmes de ação, como as tomadas do caveirão invadindo a favela. O maior deles é a saída encontrada para personalizar a mudança de Nascimento: Fraga vem a ser o marido de sua ex, com quem o filho vive. Quando o rapaz vai parar na delegacia e começa a ver o pai como um fascistoide, ele vê sua impotência diante da complexidade da questão; depois, o rapaz vai parar no hospital. (Em todo filme de pancadaria, o protagonista tem como motivação a agressão a um familiar.) De resto, porém, o roteiro tem poucas cenas marcantes, ao contrário do anterior. Uma delas, breve até demais, é a da tortura da jornalista (Tainá Müller), alusão aos casos reais de Tim Lopes e de uma equipe de O Dia.

Outra, bem mais relevante, é a do sobrevoo de Brasília no final do filme. Habilmente o argumento vai levando a ineficácia do combate ao crime para a questão de fundo: os interesses e a impunidade da classe política. É um gesto corajoso, ainda mais em época eleitoral, e sugere que Padilha está pronto para fazer um filme sobre esses corruptos, adotando um realismo político também raro nas narrativas brasileiras. O sucesso de Tropa de Elite 2, que tem batido todos os recordes de público (e comprovado que o primeiro foi sim prejudicado pela absurda pirataria que o precedeu), pode ser atribuído em boa parte a essa crítica em tempo real aos políticos, dimensão quase ausente no anterior. E ao fato de, por isso também, ser um filme mais completo, que tem até momentos de humor. Toda maturidade, num país que resiste a ser sério, deve ser aplaudida.

Cadernos do cinema. O charmoso Centro Cultural do Banco do Brasil exibe até hoje um ciclo de filmes do grande John Ford. O catálogo, em realidade um livro, não é menos precioso: traz textos de Peter Bogadnovich, Jacques Rancière, Glauber Rocha e outros. Andrew Sarris esmerilha em O Poeta Festejado, analisando alguns filmes como Vinhas da Ira, em que diz que Ford "humaniza os insetos econômicos de Steinbeck". E a dupla Joseph McBride e Michael Wilmington analisa ao ponto meus dois favoritos, Rastros de Ódio e O Homem Que Matou o Facínora, como westerns que transcendem o gênero por sutileza psicológica, com heróis ambíguos e interiores sombrios em contraste com as rochosas pradarias e seus desafios. Há críticos que rejeitam filmes que retratam a violência, cada vez mais comuns no cinema, mas a resposta está em Ford: é preciso saber o que mostrar e o que não mostrar, o que exibir e o que sugerir. O invisível enriquecendo o visível. Algum dia o cinema brasileiro chega lá?

O caminho para Copiapó. John Ford talvez filmasse a história dos mineiros do Chile, sobre a qual escrevi anteontem. Por mais que se lamentem os erros cometidos antes, a começar pela insegurança, e as explorações políticas que vêm depois, não há como negar que se trata de uma grande história, não apenas pelo final feliz, mas pelo modo como se chegou até ele: os trabalhadores se organizando lá nas profundezas do Atacama, enquanto na superfície o resgate era planejado com senso de equipe e apoio da tecnologia. Citei algumas obras que tratam de mineradores, como o livro O Caminho para Wigan Pier, de George Orwell, e o filme A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder, mas poderia ter citado muitos outros, como O Germinal, de Zola, ou Hector Malot e Jules Verne. Mas pensei mesmo num verso de Píndaro, sobre "esgotar o campo do possível", e na mania muito moderna de só querer o impossível.

Rodapé. Seguindo no mundo dos poetas, Ferreira Gullar completou 80 anos e foi devidamente festejado como nosso maior poeta vivo. Quem nos presenteou, no entanto, foi ele: depois de 11 anos sem poemas inéditos, publicou Em Alguma Parte Alguma (José Olympio), que soa como um desdobramento do anterior, o excelente Muitas Vozes. Apesar dos versos espaçados, com vazios dignos das esculturas de Weissmann, a dicção lembra sobretudo os dois grandes poetas modernos brasileiros, Drummond e João Cabral. "Na natureza/ não há crimes nem culpas", diz ele em O Louva-Deus, e todo o livro é permeado por essa serenidade crítica, por essa experiência acumulada sem orgulho besta.

Uma lágrima. Para Joan Sutherland, "La Stupenda", morta aos 83 anos. Foi uma das vozes do século 20, com auge nos anos 50 até início dos 60, e seu registro sempre foi motivo de debate, porque era capaz fazer coisas mais ligeiras e mais dramáticas com a mesma eficiência, sobretudo com uma dicção fluente, impressionante em suas passagens de tom. Ela estava para Maria Callas como Ella Fitzgerald para Billie Holiday, no sentido de que tinha grande amplitude e não tanta expressividade. Compare, por exemplo, a Casta Diva de Joan com a de Callas. Mas não importa. Ela atingiu aquele estágio em que as comparações se esvanecem assim que escutamos as primeiras notas.

Por que não me ufano. Depois de dez colunas seguidas abrindo com o tema da campanha política, decidi dar uma folga ao leitor hoje. Mas não aqui no final... Acho que muitas pessoas confundem o conceito de probabilidade. Se algo tem 70% de chance de acontecer, isso não significa que os outros 30% não possam. Dilma Rousseff ainda é favorita para vencer as eleições, apesar de todos os erros que anda cometendo, revelando sua agressividade. A campanha de José Serra apenas agora entendeu que deveria retomar algumas bandeiras que o lulismo tirou do tucanato. "Se você tem celular, eleitor, é porque foi feita uma privatização antes, embora o PT fosse contra ela" - e assim por diante. Mas volto a dizer: dificilmente se faz em duas semanas o que não se fez em oito anos. Se o voto religioso definir, será um retrocesso ululante.

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