A questão da moralidade

Entrevista com a escritora alemã Juli Zeh

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2013 | 02h15

Em A Menina Sem Qualidades, você trabalha com uma rede complexa de alusões intertextuais, metáforas inteligentes e mudanças de perspectiva irônicas. Como isso pode ser mostrado na televisão? Isto é, o que você recomendaria aos roteiristas brasileiros?

As técnicas literárias que menciona não podem ser transpostas nem copiadas na televisão. É por isso que eu aconselharia aos realizadores que considerem seu A Menina Sem Qualidades na TV como um projeto autônomo. Meu desejo é que eles não considerem apenas a trama do romance, mas tentem expor algumas de suas ideias filosóficas. O livro questiona se a moral ainda pode ser a base da sociedade quando os humanos se consideram indivíduos. Moralidade é um sistema de valores compartilhados. Como ele poderia funcionar na sociedade moderna? A moralidade terá sido substituída pela ideia de jogo e a ética pela de regras do jogo? Essas deveriam ser as questões centrais do roteiro.

Têm havido muitas considerações sobre a mudança do mundo após o 11 de Setembro de 2001. Ele foi um ponto marcante?

Definitivamente sim. No meu entender, a mudança de 1989/90, com o fim da Guerra Fria, foi um ponto marcante que nos levou a uma fase curta de otimismo. Achamos que tínhamos uma chance real de construir uma ordem mundial mais baseada em cooperação e comunicação. Isso foi bruscamente interrompido pelo 11 de Setembro. Desde então, as potências que querem ver o mundo como uma guerra permanente entre linhas de frente definidas, estão em ação novamente. A maioria das pessoas se sente deprimida e pensa no futuro com pessimismo.

Falando sobre seu novo livro, Corpus Delicti, apesar de todas as tiradas distópicas, esta não é uma obra opressiva - ou profundamente perversa. Concorda?

Não estou certa de ter entendido bem a pergunta. Acredita realmente que o romance é perverso? Eu discordo fortemente. É um romance político sobre a tendência contemporânea a adorar o corpo do homem em vez de considerar o espírito como a condição humana essencial. É um romance sobre o fim do humanismo e o renascimento da biopolítica. Eu considero bastante normal pensar e escrever sobre isso. Não é absolutamente perverso.

Você acredita que romancistas têm uma obrigação moral com seus personagens e também com seus leitores?

Não mais do que as outras pessoas. A obrigação moral de um escritor é principalmente evitar agressões a pessoas em seu ambiente privado. A maioria dos escritores usa as próprias experiências como base para suas histórias. Se o fazem, isso pode afetar amigos, parentes, cônjuges. É importante se perguntar até onde se quer ir em nome da arte. Afora isso, não há muito mais obrigação. Evidentemente, é sempre necessário dar o melhor de si e preferível se preocupar com a sociedade onde se vive. Mas isso vale para todo o mundo, não só para escritores. / U.B.

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