A queda de braço de Ana

Best-seller com livro ilustrado, artista argentina revitaliza ativismo feminista

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2011 | 06h09

Garotas boas vão para o paraíso. Garotas más vão para qualquer lugar.

Com esse mote de para-choque de automóvel, a cartunista, artista plástica, jornalista e escritora argentina Ana von Rebeur tornou-se best-seller na América Latina (Uruguai, Chile, Venezuela) com o livro ilustrado Todas Brujas - Las Ventajas de Ser Mala (Todas Bruxas - As Vantagens de Ser Má). Que foi publicado também na Alemanha, Espanha, Bósnia, França. "Está esgotado em toda a América Latina, agora só falta encontrar um editor brasileiro", disse Ana, ao desembarcar em São Paulo, na sexta, para participar de um simpósio de cartunistas.

Apenas para ilustrar: Ana se orgulha de ser uma espécie de anti-Maitena (Matina Burundarena, outra cartunista argentina de grande sucesso popular). Profundamente engajada e ativista, é presidente desde 2001 da Federação dos Cartunistas Internacional na América do Sul, entidade que está presente em 30 países e congrega mais de 3 mil profissionais. A artista já tinha estado antes em convenções de quadrinistas em Foz do Iguaçu, Porto Alegre e Teresina, no Piauí.

"No trabalho de Maitena, as mulheres são gastadoras, obcecadas com cirurgias plásticas. Eu não falo sobre esses temas, mas de uma mulher aventureira, que não precisa do cartão de crédito do marido, que é independente. Cada uma tem seu público. Ela mostra um modelo de mulher de classe média alta, não é o meu caso, procuro me aproximar mais da realidade", disse.

Nascida "no mesmo ano da boneca Barbie" (em 1959), segundo diz, a argentina é ponta de lança de um tipo de neofeminismo organizado que alia a militância a um senso de inserção social. "A mulher cartunista tem um campo de trabalho limitado. Seguramente, não tem as portas abertas. Quando você vai a uma redação, geralmente ouve que tem de fazer cartuns que falem exclusivamente do universo feminino. Às vezes, fazemos isso com vontade, às vezes sem, para sermos aceitas. As redações estão cheias de homens que querem favorecer aos homens. Não são muitas as chargistas que falam de política ou de economia, mas é porque têm as portas fechadas", analisa.

Para ela, a emergência de nomes como a iraniana Marjane Satrapi (autora de Persépolis) não é um sinal de mudança no cenário. Os nomes de relevo ainda são muito poucos e os homens "não imaginam que uma mulher possa fazer quadrinhos, que possa ser engraçada". Ainda assim, Ana considera que "as poucas que somos" têm um componente de perseverança e ousadia, e que o momento é bom para enfrentar a concorrência masculina.

"De fato, as mulheres estão se animando a entrar em âmbitos masculinos. Temos presidentes mulheres na Argentina e no Brasil. É um sinal dos tempos, de que a mulher pode se atrever a dizer o que tem vontade de dizer", considera. Mas o principal desafio é tirar a mulher do rol de vítima da sociedade.

"Há muita luta pela frente. Há muitos estereótipos a se derrubar, muitas versões flácidas. Por exemplo: há uma ideia de que se os homens são machistas, isso é culpa da mulher, que as mulheres estão criando filhos machistas. A responsabilização da mulher por todas as falhas sociais é um sistema machista. Dentro do humor, eu sigo fazendo um discurso que denuncie isso. Me incomoda um tipo de arte que continua falando da mulher como um ser estúpido."

Ela ouviu falar do projeto Womanthology, de Renae de Liz, e elogia a iniciativa - a cartunista americana Renae lançou um desafio pelo Facebook para reunir mulheres ilustradoras num álbum e alistou 140 garotas, além de conseguir doações recordes por meio do Twitter para o projeto, que está em fase final de acabamento.

Ana von Rebeur estudou Psicologia (Universidade de Buenos Aires), Química (Universidade de Morón) e Desenho Gráfico (Escola Panamericana de Arte) e trabalhou no Canal 7 de TV. Também trabalhou como aeromoça na Aerolíneas Argentinas, entre de 1980 a 1994. Começou nos quadrinhos traduzindo o inglês para o espanhol gibis da DC Comics, gigante americana dos quadrinhos, e logo juntava-se aos artistas da revista Humor.

Como jornalista, escreveu para mais de 70 diários da Argentina e do exterior. Já possui 30 livros publicados, e ilustrou um manual de alfabetização para adultos que foi distribuído para 150 mil pessoas de populações rurais de 8 países da América Central e do Caribe, encomendado pela OEA. Para o teatro, escreveu as comédias Nadie Plancha como Yo e La hija de. Ambas obras foram distinguidas pelo Premio Estrella de Mar 2004 e o prêmio ACE 1997 (Asociación de Críticos del Espectáculo).

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