A quatro mãos

Em CDs-livros especiais, o talento de José Feghali e Jean-Louis Steuerman

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2010 | 00h00

A indústria musical convencional - eufemismo para qualificar as gravadoras, em atual estado de agonia - já se conformou com o declínio irreversível das vendas dos produtos físicos, condenados a ocupar só um nicho neste mercado, e assiste à decolagem dos downloads digitais. Mas os músicos e outras indústrias paralelas estão encontrando brechas e saídas criativas para atrair consumidores para o chamado suporte físico - outro eufemismo para designar o CD.

Os mais recentes exemplos desta tendência envolvem José Feghali e Jean-Louis Steuerman, dois pianistas cariocas eruditos de prestígio internacional, radicados no exterior há muito tempo. Ambos acabam de lançar gravações em formatos diferenciados. Ambos, ainda, funcionam como suporte de livros - um de entrevistas e conversas sobre o compositor alemão Robert Schumann, outro enfocando a música da Segunda Escola de Viena combinada com ensaio fotográfico.

O veterano jornalista e crítico norte-americano John Tibbetts mantém vários programas sobre música clássica na TV e no rádio, em Kansas City. E é um fanático por Schumann. Ele coletou comentários e depoimentos sobre o pianista e compositor de todos os profissionais ligados à música que passaram por sua cidade ao longo dos últimos 25 anos.

O resultado é um livro acompanhado de um CD. É um fascinante volume de 500 páginas, Schumann - A Chorus of Voices (Ed. Amadeus, US$ 23 mais frete; ou download pelo kindle por US$ 21. www.amazon.com ), no qual desfilam impressões muitas vezes agudas e interessantes de grandes talentos como os cantores Dietrich Fischer-Dieskau, Elly Ameling e Thomas Hampson; de pesquisadores como Jacques Barzun, Susan McClary e Leon Plantinga; e naturalmente de pianistas como Emanuel Ax, Ronald Brautigan (que interpreta no CD as Noveletten Opus 21) e José Feghali, que intercala seus comentários em conversa com Tibbetts com execuções de trechos do ciclo para piano Carnaval. É uma masterclass preciosa para o público, que tem assim mais ferramentas para ir além da compreensão rasa deste importante ciclo pianístico; e também para outros estudantes e/ou pianistas que pretendam interpretar a obra.

Destaque. Aos 49 anos, inexplicavelmente José Feghali talvez não tenha o destaque, aqui mesmo no Brasil, de que desfruta internacionalmente, por ter conquistado em 1985 a medalha de ouro no 7.º Concurso Internacional Van Cliburn, que foi realizado nos Estados Unidos.

O pianista gravou em 2005 as Bachianas Brasileiras n.º 3 de Villa-Lobos com a Sinfônica de Naschville regida por Kenneth Schermerhorn para o selo Naxos; Valses Nobles (Koss Classics, 2005) e o registro do Van Cliburn (CD do selo VAI).

Do outro lado do Atlântico, em Paris, Jean-Louis Steuerman, de 61 anos, está no auge de uma carreira internacional muito expressiva. Já gravou para a Philips e vários outros selos e mais recentemente para a Naxos. A editora parisiense Actes Sud lançou na França Berg, Schoenberg, Webern Piano Music (Steuerman (piano), Michael Ackerman (fotos). Livro-CD de 80 págs., 26 mais frete. www.fnac.com). Podemos chamá-lo de livro-CD ou então de CD-livro, dependendo do enfoque.

Do ponto de vista musical, é uma notável e profunda amostragem representativa da produção pianística da revolucionária Segunda Escola de Viena, que floresceu no início do século 20 e marcou o crucial período da transição da música tonal convencional para o atonalismo e a música serial.

Refinamento visual. Sob o ponto de vista visual, traz um refinado ensaio fotográfico de Michael Ackerman, nascido em 1967 em Tel-Aviv e hoje se dividindo entre duas casas, uma localizada em Nova York e a outra em Cracóvia, na Polônia.

São pouco mais de 50 páginas de imagens fundamentais e de forte cunho histórico que fazem da transição e da dissolução de uma visão certinha o seu eixo central - em tudo afim à música de Alban Berg, Arnold Schoenberg e Anton Webern.

Jean-Louis Steuerman consegue a proeza de realizar uma interpretação que funciona como facilitadora desse repertório de difícil compreensão. Isto é, chama amigavelmente o ouvinte para a prática de uma escuta proativa dessas peças de transição entre o tonal e o atonal (mal comparando, em artes visuais, seria a passagem exata do figurativismo para o abstracionismo). E isso acontece pelo nível de excelência de sua execução. É, enfim, um CD que se impõe num cotejo com qualquer outro registro dessa produção. E isso, definitivamente, não é pouco.

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