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Ignácio de Loyola Brandão
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A purificação pode vir de uma geleia de mexerica

Nós, urbanoides, fomos convocados para ritual que nos fez esquecer o tempo

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2017 | 02h00

Para Celina Mori Matos, 9 anos, de Maria da Fé, MG

Sueli aconselha colher as mexericas pela manhã, quando elas estão ainda frescas pelo sereno da noite. Arranque-as ternamente dos galhos para que não fiquem marcas nos gomos. Deposite-as em cestos de palha e leve onde haja bom espaço para os preparativos que são grupais, delicados, exigem paciência e pedem muito assunto para conversas e risos ou alguém, que não sabendo manejar nenhum utensílio doméstico, possa cantar ou contar histórias para entreter. 

Estamos em Alto das Tocas, no sul de Minas Gerais, próximos a São Lourenço e Aiuruoca. De alguns pontos dessas terras de Ivo Szterling e Sueli Chaves avistamos o Itatiaia, picos da Mantiqueira, as Agulhas Negras e a Mitra do Bispo. O nome do lugar vem das lembranças das onças que, no passado, se refugiavam em tocas. A água que desce das nascentes forma um lago e aciona o monjolo, onde se pila o café. A água pode ser bebida direto das torneiras. Há quanto tempo não fazia isso? Séculos. A região é a de Cangalha, termo que me era familiar, meu avô José, marceneiro, costumava fazer cangalhas de madeira para serem colocadas no lombo dos burros, que conduziam mercadorias nas tropas.

As mulheres, Ciça, Marcia, Carla, Rose e Renatinha, foram convocadas já no café da manhã, entre pães de queijo saídos do forno, iogurte natural, bolos, biscoitos de polvilho com receita de Helena Rizzo, do Maní, pães comuns e de azeitona (afinal, naquelas terras, Ivo produz azeitonas e o azeite AIU), queijos da região, manteiga com leite de vacas do curral, frutas, suco verde, suco de laranja com mexerica. A reunião era para fazer a geleia de mexerica, receita de Ruth Barbieri, mãe de Ciça, que quase chegando aos 90 anos ainda briga querendo dirigir por São Paulo e brinda os amigos com preciosos vidrinhos de incomparável sabor. 

A mexerica ou mixirica (em Araraquara) também é conhecida como bergamota, mandarina, fuxiqueira, mimosa, Clementina ou mexerica do Rio, de casca fina, perfumada para uns, “fedidinha” para outros. Aquela cujo sumo penetra na pele. Acontece que Ciça estava no Alto das Tocas, viu o “mexerical” carregado, conspirou com Sueli, que convocou, aliás coordenou todos nós, urbanoides, para um ritual ligado ao campo, à terra. Cerimônia que nos fez esquecer o tempo e nos tranquilizou, tão eficiente quanto uma xícara de Chá de Estrada (erva-cidreira; não confundir com Capim Santo) à noite, antes de dormir. 

Não existe relógio, iPhone, smartphone, rádio, tevê, nada. Esqueçam what’s up, sms, o que for. Deixem a tecnologia a distância, ela pode distrair, preocupar, tensionar. A mente deve concentrar-se apenas nas mexericas de um alaranjado intenso. Problemas, preocupações, dificuldades, canseiras, contrariedades, tormentos, vão se dissolvendo no gume das faquinhas afiadas. São enviadas para longe, além dos limites das porteiras. Afinal, estávamos a 656 quilômetros de São Paulo em linha reta, só que retas não existem em Minas; me desminta Werneck. O mundo se resume àquele espaço batido pelo sol outonal da Mantiqueira, na varanda de madeira de onde se vê a Pedra do Rincão e os vales e colinas encobertos por nuvens que insistem em grudar no solo, apaixonadas. 

Naquela manhã, dividiram as tarefas. Uma cortava os frutos ao meio, outra retirava a parte dos gomos, um terceiro abria gomo a gomo e manejando a faca como se fosse um bisturi, retirava o que em criança chamávamos as “garrafinhas”, separando as sementes. Aquela massa de “garrafinhas” encheu devagar uma vasilha. Passada hora e meia, o resultado tinha sido alguns centímetros de massa. Outros apanhavam as cascas e com uma pequena colher ou uma faquinha curva na ponta, tiravam a massa branca junto à casca que pode amargar a geleia. 

Todos se envolvem, conversam, perguntam por que fomos nos meter nisso? Depois riem, relaxados. As cascas são lavadas sete vezes, cozidas, cortadas em tiras e as tiras, por sua vez, cortadas em pedaços milimétricos, que irão para os tachos de cobre, misturados à massa da polpa e ao açúcar. Vigília sobre o fogo, o fogão é de lenha, canos passam por dentro das brasas, aquecem a água que serve banheiros e cozinha. Há também energia solar. São horas em fogo lento até vermos que a geleia tomou forma, um perfume cítrico invadiu a casa, virá o resfriamento, a colocação em potes de vidros. E a espera para o café na manhã do dia seguinte. É provável que alguém assalte a geladeira.

Nesse meio tempo, as horas se passaram, todos trabalharam (confesso, fiz o mínimo, fingi muito). Levei um texto para revisar, nem abri. Naquele silêncio, naquele sol, rodeado por montanhas verdes, vendo reunidos os produtores de azeitona e azeite, que investem e arriscam em uma atividade nova, que vem crescendo no Brasil, olhei para este país e para os homens que levam as coisas para frente. Três dias valeram por anos de terapia. 

Nem por um segundo pensei naqueles sujeitos horrendos que, em Brasília, procuram nos reconduzir à pré-história. Aquele corpo de políticos corruptos, sem ética e moral, que nos desgoverna, afundado na lama dos bordéis do planalto central. Eles nada sabem nem querem saber da força desses homens do campo, imersos em tarefas de construção. Pensei nisso, esperando a geleia de mexerica esfriar. Canalhas que vivem da compra e venda de suas almas, sem nada saber dos verdadeiros brasileiros, os que sobrevivem em meio a ruínas, empreendem, criam, e mantêm este Brasil de pé. A geleia foi uma purificação. Há tanto de bom a fazer.

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