À prova de morte

Desconfio que ninguém neste mundo goste tanto do seu emprego quanto Quentin Tarantino. Escrevo, é claro, do diretor de cinema, responsável por obras memoráveis como Pulp Fiction (Tempo de Violência), Cães de Aluguel e Bastardos Inglórios. Talvez Woody Allen. Mas falemos dele depois.

Matthew Shirts, matthew.shirts@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2010 | 00h00

Entendo que nem todos concordam que diretor de cinema seja um emprego. Alguns, mais europeizados, talvez chamassem a atividade de arte. Mas nos Estados Unidos, ao menos, é entendido como um trabalho, uma carreira, um emprego até, embora alguns diretores sejam considerados artistas também.

Para não haver discórdia, vamos dizer assim: desconfio que ninguém neste mundo goste tanto do que faz quanto o Tarantino.

Pensei nisso durante a segunda sessão em seguida do seu filme À Prova de Morte (Death Proof), no cinema Unibanco da Rua Augusta na noite da segunda-feira última. (É de 2007, mas entrou em cartaz há pouco.)

Havia muito tempo que não assistia duas vezes ao mesmo filme em sequência, sem ser no DVD. Desde o lançamento de Guerra das Estrelas nos Estados Unidos, quiçá, numa galáxia distante, mas próxima a San Diego, na Califórnia. Quando terminou À Prova de Morte, queria mais do mesmo. Antigamente bastava ficar ali e esperar varrer o chão que começava tudo de novo. Mas não sei se ainda se pode fazer isso. Como só havia pago meia-entrada, por ser cliente do banco, resolvi sair e comprar outro ingresso. (Sou militante de direitos autorais, contra o xerox de livros na faculdade, aquelas coisas.) Deu para eu me abastecer de pipoca, no pipoqueiro (que existe neste cinema), trocar uma palavra com uma amiga da minha filha Maria (São Paulo é interiorana), entregar o novo bilhete para o bilheteiro, palavra que adoro, e entrar de novo.

Não quero estragar o filme para você. Mas gostei ainda mais da segunda vez. Os detalhes são exuberantes. Impossível entendê-los todos de primeira. Iria de novo se alguém me convidar.

A ação passa entre as cidades de Austin no Texas e Lebanon (Líbano), no Tennessee. Esta última - Lebanon, Tennessee - é uma referência ao filme Paris, Texas, de Wim Wenders, desconfio. A cidade de Líbano existe, sim, segundo o Google: população 20 mil.

Essa talvez seja a obra mais feminina do Tarantino. Mistura filmes de meninas adolescentes com os de terror e outros de automóveis, para citar algumas pedras de toque. O mais fascinante é ver como ele consegue extrair de muitos filmes ruins uma obra de arte. O segredo, acredito, é o seu amor pelo cinema, de A a B. Ele se entusiasma com cada referência, com cada piada, com cada cena e consegue passar isso ao espectador. Curte tanto algumas cenas que as projeta em "replay" e câmera lenta

Estamos nos Estados Unidos mais profundos, na essência da América. Tarantino enxerga o país com o olhar de estrangeiro. Lembra um pouco o francês Alexis de Tocqueville andando pelos Estados Unidos no seu livro clássico Democracia na América (1835). Só que estamos de carro, em carrões, aliás, americanos com motores imensos. O filme inteiro, de Austin a Lebanon, passa ou no carro, ou no bar, ou no mini mercado, que ninguém é de ferro. No mercadinho pode tudo: comprar garrafas de bolso de vodca para a estrada, balas de rifle, imagino, refrigerantes gigantescos com muito gelo, óculos escuros ou tirar dinheiro na máquina. Mas a edição italiana da revista Vogue, de moda, só se vende clandestinamente, no mercado negro. Custa 27 dólares. Acho que a cena inteira foi construída para fazer esse comentário sobre o estilo americano, que é divertido.

À Prova de Morte é menos ambicioso que Bastardos Inglórios e Kill Bill, os filmes anterior e posterior do Tarantino. Talvez por isso agrade tanto. Vá vê-lo antes que saia de cartaz. O cineasta parece tranquilo, sem nada para provar, nem perder, sem exageros, se é que se pode dizer isso de Tarantino.

Woody Allen, meu outro cineasta predileto, reclama muito, mas também gosta do emprego. Dirigir a primeira-dama da França no cinema, dizer a ela como se apresentar, andar, o que vestir, só pode ser um momento de glória para um artista americano. Acho que o Alexis de Tocqueville teria um treco se soubesse. Ou desse uma boa de uma risada.

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