A prosa solar de Mariana Ianelli

Poeta reúne em livro, com lançamento hoje em São Paulo, crônicas escritas durante quase um ano para o Vida Breve

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2013 | 02h12

A poeta Mariana Ianelli já tinha experimentado a prosa, escrevendo um conto aqui e uma crônica ali, mas nunca viu muito propósito em fazer textos assim para deixar na gaveta, diferentemente dos poemas que escreve desde menina. "A poesia vem do silêncio e permite ser guardada para depois. A prosa é solar. Você sai para o sol e ela se conecta com o leitor", diz. E completa: "A poesia seria a penumbra e a crônica fica no meio do caminho - ela precisa ser ágil, chamar o leitor, mas chamá-lo um pouco para a sombra também".

Em setembro de 2010, a poeta encontrou um propósito para se aventurar pela crônica. Foi quando recebeu o convite de Rogério Pereira, idealizador ao lado de Luís Henrique Pellanda do site Vida Breve, para publicar textos curtos lá todos os sábados. Aceitou com graça, se encantou com a tarefa e resolveu publicar um livro com essas suas crônicas feitas durante quase um ano para a internet. Breves Anotações Sobre um Tigre, seu primeiro título fora da poesia, será lançado hoje em São Paulo.

Mais do que um exercício narrativo, a escrita foi um processo de autoconhecimento. "O cronista parte sempre de sua visão e é interessante ver de onde ele fala. A experiência me fez conhecer muita coisa sobre mim", conta. E isso, desde o princípio, quando teve de encarar o medo da primeira crônica. "Pensei em milhares de assuntos para esse primeiro texto. Depois de esgotadas todas as possibilidades, fiquei naquele deserto e me veio a imagem de um retrato da minha mãe. Foi uma maneira de eu me apresentar a mim mesma: de onde eu falo? De onde eu parto? Foi surpreendente descobrir sobre mim, sobre esse estado de recolhimento que está lá atrás, simbolizado nesse retrato marcante e tão especial." O quadro feito por seu avô Arcangelo Ianelli em 1956, reproduzido no livro, mostra a mãe de Mariana, Katia, aos seis anos. Muitas outras pinturas como essa permearam o ateliê do avô e a infância e imaginação da poeta, e essas relações familiares, que são dela mas que são comuns a qualquer um, acompanham algumas das crônicas - todas as 40 ilustradas por Alfredo Aquino, pai da autora.

Mariana escreve textos curtos. Alguns mais próximos da prosa poética. Outros mais objetivos, sobre temas que a inquietam - a pena de morte, a violência urbana, a celebrização da figura do escritor - ou sobre assuntos que se insinuavam - a volta de um livro às livrarias, a chegada do Natal, a saudade dos mortos, etc. "Mas, inevitavelmente, a poesia acaba habitando e a crônica se torna um espaço muito propício para a oficina poética", comenta. Mariana cita o português António Lobo Antunes: "Suas crônicas são pura poesia e nem por isso ele se descola da realidade".

Se a leitura de poesia é tarefa mais intimista, a da crônica pede conversa, contato, retorno. E a autora chegou a receber comentário mais extenso do que a crônica que o motivou.

Apesar de terem sido escritos de forma independente e de terem sido inspirados em momentos e assuntos diversos, a autora vê unidade na obra: "Há uma conexão entre os textos. É a história do falar do mundo, mas falar de dentro da casa. E o que une uma coisa à outra é meu modo de ver as coisas e a literatura".

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