A prosa, a poesia e a crise portuguesa estão em debate

Lídia Jorge e José Luis Peixoto são alguns dos convidados de evento que a Casa Fernando Pessoa abre hoje, em São Paulo

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2013 | 02h09

Cinco escritores portugueses, de idades diferentes e de temáticas e estilos variados, estão no Brasil esta semana para encontros com leitores - em São Paulo (hoje), Porto Alegre (PUC, quinta) e no Rio (Instituto Moreira Salles, sábado). Vozes da Língua Portuguesa é uma iniciativa da lisboeta Casa Fernando Pessoa dentro da programação do Ano de Portugal no Brasil e uma boa oportunidade para ver ou rever Lídia Jorge e José Luis Peixoto, que têm vindo com mais frequência ao País, e ainda Rui Zink, Gastão Cruz e Patrícia Reis. Todos editados aqui, mas uns mais conhecidos do que outros.

Às 16 h, a Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94; tel. 3775-0002) recebe Lídia Jorge, Patrícia Reis e Rui Zink. Às 20 h, o debate será no Sesc Consolação (Rua Dr. Vila Nova, 245; tel. 3234-3000), com Gastão Cruz e José Luis Peixoto.

A mediação dos encontros será da também escritora Inês Pedrosa, diretora da Casa Fernando Pessoa. "Nossa ideia é apresentar um conjunto de autores portugueses com obras já publicadas no Brasil, mas não necessariamente muito divulgadas", diz.

Rui Zink, 51 anos, é um dos convidados que, na opinião de Inês, não tiveram a repercussão merecida. "Ele é um bom comunicador, com um lado teatral forte e com uma escrita cheia de humor, de um humor cáustico. Tenho para mim que o leitor brasileiro gostará muito dele se ele tiver mais divulgação." Autor de O Reserva (Planeta, 2004), ele concorda: "Não, não tive o reconhecimento que mereço. Então sou o fã português n.º 1 de Rubem Fonseca e isso vale nada?", brinca. Ele teve um segundo título publicado aqui também pela Planeta - Dádiva Divina (2007) -, mas tampouco ficou satisfeito com o trabalho e hoje procura nova editora.

Seu livro mais recente, A Instalação do Medo, sobre terrorismo na Europa, saiu em Portugal em novembro e integra uma bibliografia ficcional que começa a dar conta de uma crise financeira e de identidade que atinge alguns países europeus.

Para Lídia Jorge, 67 anos, esta é "uma obra notável, irônica, inteligente, desafiadora". Ela comenta sobre outro autor, que já traduz o momento: o poeta Nuno Júdice, vencedor, na semana passada, do Prêmio Reina Sofia. Ele não vem nesta comitiva, e tem um único livro nas lojas brasileiras. "Nuno publicou A Implosão, uma metáfora sobre o tempo que passa, uma pequena grande obra sobre este 'intervalo' demasiado penoso que estamos a atravessar. A crise em si, que não é só nossa, mudará o mundo, mudará a forma de o ver e de o escrever", diz Lídia, que lançou aqui, em 2012, A Noite das Mulheres Cantoras (Leya).

"Grande senhora das letras portuguesas", nas palavras de Rui Zink, Lídia divide o palco com o próprio Rui e com Patrícia Reis, de 41 anos, que teve seu romance Por Este Mundo Acima incluído na coleção Novíssimos (Leya). Ela comenta o encontro: "Temos em comum o fato de escrevermos sobre a modernidade, procurando 'des-ocultá-la'. Esse ponto de vista comum, que nos aproxima, também nos leva a universos literários diferentes. Patrícia Reis é uma escritora de sentimentos e relações humanas, a que não falta a voz da compaixão dada de modo desenvolto e por vezes com uma forte carga poética. O Rui é um poeta do mundo sociológico, um irônico, profundo e gracioso. Por vezes suas metáforas lembram um Kafka que resolveu sorrir".

José Luis Peixoto, 38 anos, autor de Livro (Companhia das Letras) e Cemitério de Pianos (Record), entre outros, e que emocionou o público da Flip que acompanhou sua leitura de Morreste-me, inédito no Brasil, na Casa de Cultura de Paraty no ano passado, espera que seu debate com o poeta Gastão Cruz, 71 anos, chame a atenção para a poesia que ele mesmo escreve, e que nunca foi editada aqui. "E espero que possamos falar do momento rico que a literatura portuguesa está atravessando e, também, avaliar um pouco da imensa importância da relação cultura, linguística e literária entre os nossos países", completa.

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