A propósito de Kafka

Diário do escritor foi ponto de partida para a reflexão a respeito de seu cuidado no trato com as palavras - e os problemas de uma tradução

Lucia Miguel Pereira, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2011 | 00h00

Lendo agora, no texto integral, o diario de Kafka, encontro uma passagem dessas que forçam o leitor à meditação, tantas são as suas decorrencias psicologicas e esteticas. Confessa ele não amar a mãe como devia, porque a chamava de "Mutter", em alemão: "A mãe israelita não é uma "Mutter", e esse modo de tratá-la como que a ridiculariza; damo-lhe o nome da mãe alemã, esquecidos da contradição que vai nisso e se pode profundamente insinuar no sentimento. Para os judeus, a palavra "Mutter" é especialmente alemã, encerra a despeito deles tanto a frieza quanto o esplendor cristãos, tornando não apenas ridicula, mas estranha a mulher judia à qual se aplica".

Como um biombo de vidro, translucido porém intransponivel, a maneira pela qual se dirigia à mãe dela o afastava, impedindo a intimidade, a fusão, embora proviesse do idioma que era afinal o seu, que manejou como grande escritor. Mas para designar a criatura a quem se devia sentir instintivamente, entranhadamente unido, precisava de outro vocativo que, não envolto em tradições cristãs, e, ao contrario, enriquecido de atavicas ressonancias hebraizantes, se vinculasse peculiarmente à figura da mãe israelita. A falta desse elo verbal enfraquecia a cadeia afetiva.

Experimentarão a mesma inibitoria sensação todos os meninos judeus que, pelo mundo em fora, chamam suas mães nas linguas dos países aos quais pertencem? Não parece provavel, que o mal-estar, em Kafka, proviria talvez menos da não coincidencia de origem e nacionalidade do que do temperamento nervoso, agravado ainda pela vocação literaria, manifestada, em ultima analise, por uma sensibilidade mais aguda para as palavras. Que Kafka a possuía intensamente, mostram-no varios trechos deste diario. Ora, sofrendo por não conseguir combinar umas com as outras as que escreve, ouve "as consoantes se atritarem com um ruido metalico, e as vogais as acompanharem cantando"; ora, ao emprega-las para fins alheios à criação artistica, não as logra pronunciar e na bôca as revolve "como se fôssem de carne crua, de carne cortada de seu proprio corpo"; ora tanto se abisma numa só que "a primeira e a ultima letra se tornam o começo e o fim" de tudo; ora, ouvindo a leitura de uma historia sua, se desespera diante da narrativa desordenada; "cheia de buracos onde caberiam as duas mãos; tal frase ronca, tal soa falso, atabalhoadamente; esta esbarra naquela, como a lingua num dente furado ou postiço". Varias outras notações neste sentido se poderiam colhêr ao longo do diario, reveladores de quanto Kafka cuidava da forma, de quanto dava valor a cada palavra.(...)

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