A proibição do Aleijadinho

O colecionador Renato de Almeida Whitaker, autor do pedido de apreensão da edição do livro O Aleijadinho e Sua Oficina (Editora Capivara) - recolhida por ordem de juiz da 4.ª Vara Cível da capital - , disse ontem ao Estado que não pode falar sobre o processo, porque o caso corre sob sigilo de Justiça. Mas afirmou que o motivo de sua ação não é "absolutamente" o cerceamento do direito de opinião dos autores, que questionam a autoria de dezenas de obras atribuídas ao Aleijadinho. Whitaker afirmou que pediu a apreensão porque ele não autorizou o uso de imagens de 5 obras da sua coleção de imagens e que, ainda assim, a editora as utilizou. "Estão tentando demonstrar que foi uma medida arbitrária, mas estava previsto que eles tinham de pegar autorização, eu neguei, e ainda assim as imagens foram utilizadas", disse. Engenheiro civil graduado pelo Mackenzie em 1969, Whitaker começou sua coleção de arte sacra há 25 anos. Hoje, é considerado um dos maiores colecionadores da obra do Aleijadinho no País, com 42 peças. O empresário negou que sua motivação tenha sido o fato de o estudo desqualificar as atribuições de obras de sua propriedade, o que lhe traria prejuízo financeiro. Na página 124 do livro O Aleijadinho e Sua Oficina (os autores são Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, Antonio Fernando Batista dos Santos e Olinto Rodrigues dos Santos Filho), uma de suas peças, Nossa Senhora das Dores, imagem que o colecionador propôs para estudos de atribuição, é dada como da Oficina do Aleijadinho. A obra tinha sido objeto de estudo, em 1961, de Rodrigo Melo Franco de Andrade, que a atribuiu a Aleijadinho. No estudo, os especialistas dizem que as mãos da santa de Whitaker, "um tanto duras, grandes e mal executadas se comparadas com outras figuras femininas do artista (...) não poderiam ter sido executadas pelo Aleijadinho". E continua: "Assim, pode ser atribuída à oficina de Antônio Francisco Lisboa, talvez executada por um de seus oficiais (...), não atingindo o apuro do mestre nas feições e mãos." O que chama mais a atenção, nessa altura do texto, é que os autores afirmam categoricamente que a obra "foi possivelmente esculpida após a morte do Aleijadinho". A afirmação só seria possível com um apurado estudo de datação, com o uso de recursos tecnológicos, mas não é mencionado se isso foi feito.

Agencia Estado,

08 de maio de 2003 | 16h45

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