A profecia do número 1

2011. A justificativa para que este começo do ano esteja tão agitado na busca de bandas-novas-que-prometem-chacoalhar-a-música está no número final, o "1".

LUCIO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2011 | 00h00

Coincidência ou não, pelo menos levando em consideração as últimas décadas, os anos de 1981, 1991 e 2001 foram importantes para o surgimento de pequenas e grandes revoluções que acabaram transformando a música independente e pautando o surgimento de bandas, estilos, modas nos anos seguintes.

Vejamos. Em 1981, na Inglaterra, o punk havia quebrado tudo musicalmente, no comportamento e no conceito e começava a tomar várias formas, sempre assombrado pela nuvem do "no future", a desesperança vigente que assustava a juventude britânica.

Em Manchester, em especial, uma certa banda enfrentava seu inferno particular. Perturbados pelo fantasma de Ian Curtis, o vocalista do Joy Division que se matou no ano anterior, os ex-companheiros de banda, já sob o nome de New Order, lançaram o disco de estreia Movement, em novembro daquele ano, um disco soturno de pós-punk que não foi muito bem recebido na época. Um mês depois o New Order soltava o single Everything"s Gonna Green, só na Bélgica, música que não estava no álbum Movement, mas que já havia aparecido escondida em um lado B de single também em 1981.

Everything"s Gonna Green, talvez acidentalmente, representou a ruptura do New Order com o pós-punk dark do Joy Division, assoprando para longe a nuvem do pessimismo, botando o rock para dançar e, sendo a primeira canção do grupo a ter som gerado por computadores, levou a banda a trilhar um certo caminho da eletrônica. E, por que não, levou a eletrônica a trilhar um certo caminho do New Order.

Dez anos depois, em 1991, a tal revolução indie foi brutal. Marcante e imediata. O tumulto na música aconteceu exatamente a partir do dia 24 de setembro, quando chegava às lojas o CD Nevermind, segundo álbum da banda americana Nirvana. E aí começou um efeito dominó na música pop.

A princípio ninguém entendeu nada quando uma banda de aspecto sujinho de Seattle, que tinha acabado de sair de uma gravadora micro à beira da falência, com uma sonoridade meio punk, meio metal e vocal esgoelado desbancou os superastros pop Michael Jackson e Madonna das paradas. Como assim?

Mais: escancarou a porta de mais vendidos para uma enorme quantidade de bandas de rock de um estilo parecido, tipo Alice in Chains, Soundgarden, Pearl Jam e, logo depois, Stone Temple Pilots. Fez o mundo "mainstream" ouvir falar de Pixies, Mudhoney, Dinosaur Jr, Sonic Youth para muito além do âmbito college, "alternative", indie.

Fora tudo isso, o disco do Nirvana, o segundo da banda, o sucessor de um primeiro álbum que custou US$ 600 para ser feito, foi o responsável por limpar o rock do "glam metal" de bandas cabeludas como Ratt e Poison e pela MTV viver momentos de TV "popular". Vendeu 26 milhões de cópias no Planeta. Botou Seattle definitivamente no mapa mundial da música. Botou também as camisas de flanela em lojas de grife de Nova York a Londres. E as camisas xadrez. As calças rasgadas. Os tênis encardidos. Para que lavar os cabelos se Kurt Cobain dificilmente o fazia?

Os jovens americanos compravam o Nevermind a uma velocidade de 350 mil cópias por semana e a maioria deles não entendia o "inglês" cantado no superhit Smells Like Teen Spirit (isso foi reportagem da MTV). O disco ajudou o New York Times, que foi a Seattle investigar o "fenômeno jovem" que sacudia o País, a publicar um texto todo zoado, errado, em suas respeitáveis páginas. Na época, o maior diário americano cismou em publicar um glossário para ajudar a América a entender o que significava palavras esquisitas como "grunge". Uma funcionária da gravadora Sub Pop, parte importantíssima da revolução de Seattle, resolveu ajudar no dicionário grunge do New York Times. E o jornal caiu direitinho na armação.

A última do Nirvana-1991. No gigantesco festival britânico Reading Festival daquele ano, cerca de duas semanas antes do lançamento do Nevermind (naquela época os CDs não vazavam na internet, que nem existia), o Nirvana foi escalado durante o dia, sol na cara, quase abrindo o festival e abaixo da banda Chapterhouse. Tinha umas mil, 1500 pessoas vendo. No ano seguinte, em 1992, para o mesmo Reading, chamaram o Nirvana de novo. A banda foi a atração principal dos três dias do evento, tocando para quase 100 mil pessoas, considerado o recorde de público do famoso festival inglês. Deu para perceber o que aconteceu no miolo da história, entre um Reading Festival e outro?

Dez anos depois, em 2001, o rock andava meio chato. Acuado pela música eletrônica, total sem graça, as únicas coisas boas feitas com guitarra vinham de umas bandas muito doidas do Texas e da Califórnia, todas com nomes longos e esquisitos: At the Drive In e Queens of the Stone Age. Aí, no calor da revolução virtual, os bem-nascidos porém sujinhos dos Strokes gritaram Last Nite lá das garagens de Nova York, enquanto de Detroit os White Stripes distorciam as guitarras blueseiras. Rapidamente, pela internet, com apenas alguns punhados de músicas, foram imediatamente ouvidos em países periféricos como o Brasil. Aí o indie bombou de novo. O rock bombou de novo. Se o Planeta Terra Festival virou o maior festival brasileiro e é todo indie, se o SWU e o Rock in Rio, quando não alopram na escalação, ficam realmente interessantes, e se o Coachella 2011 tem Kings of Leon de headliner em um dia e Arcade Fire em outro, a culpa é de 2001, dos Strokes e dos White Stripes.

E agora, em 2011, de onde virá a revolução?

LUCIO RIBEIRO É JORNALISTA DE CULTURA POP E EDITOR DO SITE POPLOAD

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