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A produção Argentina, vista por um grande

Marcelo Piñeyro mostra seu filme Las Viudas del Jueves e analisa tendências

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

Com o foco na Argentina, o Festival do Rio acolhe uma delegação de artistas do país vizinho. Eles estão aqui tentando explicar como e por que o cinema argentino faz tanto sucesso - e cativa plateias como a brasileira, com suas histórias humanas, bem escritas e interpretadas. O Brasil até hoje persegue o Oscar, como se dele dependesse o próprio cinema brasileiro. A Argentina ganhou dois - por História Oficial e O Segredo dos Seus Olhos. Num debate realizado no domingo, no quadro do Rio Market - sobre o tema o que impulsiona o sucesso -, Fernando Meirelles arriscou uma interpretação. A Argentina não foi um país de formação escravocrata, como o Brasil. Como consequência, apesar da desigualdade social, não teve o abismo que tradicionalmente separa brancos e negros no País. A Argentina possui uma classe média consciente de si. É o público que vai ao cinema e se reconhece na tela.

A interpretação é correta. Os filmes argentinos tratam, tradicionalmente, da classe média. Mas Marcelo Piñeyro fez uma observação curiosa. Ele está aqui no Festival do Rio mostrando seu novo longa, Las Viudas del Jueves, As Viúvas das Quintas-feiras. Piñeyro é diretor de filmes como Tango Feroz, Dinheiro Vivo, Kamchatka e O Método, lançado como O Que Você Faria?. Ele conta que seus filmes fazem, em média, 500 mil espectadores na Argentina, com picos de mais de 1 milhão. As Viúvas mal ultrapassou esse número. "O público de classe média se reconheceu na tela, mas não gostou do que viu."

As Viúvas nasceu como decorrência de O Método. "Ambos formam um díptico", esclarece o diretor. "Tratam da Argentina pós-crise econômica. O Método mostra aqueles personagens reunidos em torno da avaliação para um pedido de emprego. Eles só existem profissionalmente, não sabemos nada sobre quem são, como são na intimidade. Tinha a sensação, ao fazê-lo, de iniciar alguma coisa nova, mas era um filme incompleto. As Viúvas o complementa. Começa com um assassinato múltiplo, de pessoas ligadas ao mercado financeiro. Agora, temos breves informações sobre a vida profissional, o foco é a vida privada."

Piñeyro não tem muitas explicações para o sucesso do cinema de seu país. No Brasil, os críticos e o público elogiam as histórias bem contadas, os roteiros sólidos e as interpretações idem. Mas nem todo o cinema argentino é assim, ele observa. E acrescenta. "O mesmo posso dizer de alguns filmes brasileiros que me encantam." Piñeyro poderia ter participado do debate do Rio Market. Segundo ele, não existe fórmula de sucesso. "Se houvesse, a empregaria." Diz que faz filmes atraído pelas histórias e pelos personagens, não necessariamente por comentários sociais que possam incluir. E cada filme é sempre uma surpresa.

"Achei que Kamchatka era muito cifrado e não teria vida fora da Argentina. Foi meu maior sucesso internacional. Na França, teve um lançamento maior do que na Argentina e foi adotado como objeto de estudo. Debati o filme com colegiais e foi muito bom." Falando de política, Piñeyro diz que o governo de Cristina Kirchner é uma surpresa. "Diziam que na Argentina não se podia governar contra a Igreja nem contra a oligarquia pampeira, o FMI e muito menos contra a mídia. Ela está provando que não é verdade. É um governo que faz história, mesmo que eu, como todo mundo, tenha críticas para formular."C

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