A procura poética em belos traços

A procura poética em belos traços

'Estrela Breve', de Leila V.B. Gouvêa reconstitui, contra o esquecimento, a trajetória de Lupe Cotrim (1933-1970)

CARLOS FELIPE MOISÉS,

10 de dezembro de 2011 | 03h00

Morre jovem o que os deuses amam é um preceito da sabedoria antiga - lembrou Fernando Pessoa, a propósito de Sá-Carneiro (1890-1916), e o preceito se aplica a Lupe Cotrim Garaude (1933- 1970). Os atuais alunos da Escola de Comunicações e Arte (ECA-USP) talvez não saibam, mas o nome do seu Centro Acadêmico homenageia, desde a origem, um dos mitos da instituição.

Em 1967, recém-graduada em filosofia, pela mesma USP, ao mesmo tempo em que prosseguia em seus estudos de pós-graduação, na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (hoje de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), ainda na rua Maria Antônia, Lupe fez parte do primeiro grupo de professores da ECA, já na Cidade Universitária, onde lecionou a disciplina de sua predileção: estética.

Mulher de extraordinária beleza, elegante e discreta, cativava a todos que dela se acercassem, tanto pelos dotes físicos (os deuses foram pródigos) quanto pela seriedade e a consistência intelectual com que se empenhou nas atividades discentes e docentes.

Como se isso fosse pouco, antes de ingressar no curso de filosofia, em 1963, Lupe já era um nome conhecido, como poeta. Tendo estreado em 1956, com Monólogos do Afeto (a que se seguiram Raiz Comum, 1959; Entre a Flor e o Tempo, 1961; Cânticos da Terra, 1962; O Poeta e o Mundo, 1964), Lupe Cotrim logo conquistou grande número de admiradores, entre os quais Carlos Drummond de Andrade, "o maior interlocutor epistolar de sua vida breve".

Foi uma longa amizade, de que resultou larga correspondência, de inegável interesse literário, pelo teor dos projetos que Lupe ia expondo ao grande poeta, sempre pronto a responder com honestidade e justeza. Em 1970, dez dias após a morte de Lupe, Drummond homenageou-a com uma crônica (Lupe, rápida) no Jornal do Brasil, reproduzindo em seguida uma breve entrevista que fizera com ela em 1958.

Mas muito cedo, insatisfeita com o "dom natural" e a "inspiração", e indiferente ao prestígio até aí obtido, Lupe resolveu dedicar-se à investigação filosófica, em especial a fenomenologia, na expectativa de que, com isso, sua criação poética adquirisse uma disciplina mais rigorosa e um cunho mais denso e duradouro. Daí resultaram Inventos (1967) e, já de publicação póstuma, Poemas ao Outro (1970), lançado pouco depois de seu falecimento, no ato que inaugurou o Centro Acadêmico dos estudantes da ECA.

Seus primeiros alunos (entre os quais Leila V.B. Gouvêa, autora deste Estrela Breve - Lupe Cotrim: Uma Biografia Literária) puderam testemunhar o fervor com que ela se entregou, nos últimos anos, ao magistério e à criação literária - como se adivinhasse que não dispunha de muito tempo.

Em seus últimos livros, ao lirismo introspectivo de origem vem-se somar uma forte inquietação social, de inspiração drummondiana. Sua poesia evolui consideravelmente, em parte sob o estímulo da poética do rigor, de João Cabral. Sua produção derradeira dá ideia da altura que teria atingido se a morte (um câncer tardiamente diagnosticado) não a levasse tão cedo.

A poesia de Lupe Cotrim, como a de vários poetas surgidos nos anos 50-60, corre o risco de ficar espremida, e esquecida, entre o beletrismo da Geração de 45, cujos próceres a cortejaram em mais de uma oportunidade, e o radicalismo antidiscursivo dos concretos, que a levou a travar, em 1968, uma esquentada polêmica com Décio Pignatari. Perto do fim, Lupe deu mostras de que teria optado por uma terceira via, a poesia engajada nas grandes causas sociais, um pouco inspirada nos CPCs (Centros Populares de Cultura), que vinham tentando se firmar, com Thiago de Melo à frente, desde o final da década de 50.

Trabalhos como o de Leila V.B. Gouvêa, fruto de prolongada e amorosa investigação, dedicação intensa ao tema "Lupe Cotrim", podem contribuir para corrigir esse esquecimento e manter viva a memória da autora de Cânticos da Terra. Acresce ainda que, além da pesquisa criteriosa e do texto fluente e cativante com que reconstitui todo um itinerário de vida, o livro de Leila Gouvêa conta ainda com uma caprichada edição: capa dura, papel cuchê, diagramação de bom gosto, abundante iconografia, inúmeros documentos - como as cartas de Drummond - transcritos e facsimilados.

Por fim, cabe assinalar um fato - de algum modo premonitório e de invulgar atualidade - que deve ter contribuído, na altura, para a formação do mito Lupe. Em 1969 (entre nós, o ano da grande rebelião estudantil, no fluxo do Maio de 1968), Lupe Cotrim viveu uma circunstância única: invadida a universidade pelos estudantes que pugnavam por um ensino de melhor qualidade, ela batalhou com o mesmo vigor tanto ao lado dos alunos, na Faculdade de Filosofia, onde era pós-graduanda, quanto ao lado dos professores, na Escola de Comunicações, já que era um deles. E não houve nisso o menor sinal de contradição ou dubiedade: ela sabia que os dois lados - maniqueísmo e oportunismo à parte - tinham boas razões para lutar. E um ideal comum a defender.

CARLOS FELIPE MOISÉS É POETA, CRÍTICO LITERÁRIO E TRADUTOR, AUTOR DE NOITE NULA E POESIA & UTOPIA, ENTRE OUTROS LIVROS

ESTRELA BREVE - LUPE COTRIM: UMA BIOGRAFIA LITERÁRIA

Autor: Leila V.B. Gouvêa

Editora: Imprensa Oficial

(320 págs., R$ 60)

 

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