À procura do absoluto

A Beleza Salvará o Mundo, volume de ensaios do pensador búlgaro Tzvetan Todorov, trata da busca da plenitude por três escritores que fizeram de suas vidas um laboratório para atingir esse objetivo: Wilde, Rilke e Marina Tsvetaeva

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

O filósofo franco-búlgaro Tzvetan Todorov é um mito do ensaísmo literário e histórico. Vivendo na França desde 1963, Todorov publicou mais de 20 livros sobre temas tão diversos como a conquista da América e o pensamento de Jean-Jacques Rousseau - mais particularmente, sobre sua ideia de felicidade humana. E foi em busca desse ideal que Todorov, hoje com 72 anos, começou a escrever o livro A Beleza Salvará o Mundo, cujo título original, Les Aventuriers de l"Absolu (Os Aventureiros do Absoluto), transmite com precisão a intenção do escritor, a da busca incessante por um estado de plenitude que torne nossa existência menos ordinária e mais bela. Não que o título brasileiro seja incorreto. Ao contrário. Todorov, em entrevista ao Estado, diz que a frase "a beleza salvará o mundo", retirada do clássico russo O Idiota, de Dostoievski, foi fundamental para que ele realizasse esse trabalho de pesquisa sobre realização interior de três grandes escritores, o irlandês Oscar Wilde (1854-1900), o poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875- 1926) e a poeta russa Marina Tsvetaeva (1894-1941).

Além da empatia que sente por eles, foram várias as razões de ter selecionado esses três nomes como "aventureiros do absoluto". Nenhum deles escolheu "caminhos balizados, mas abriram novas vias" para seus leitores, afirma Todorov. Foram tão longe quanto possível nessa aventura libertária. Muitos outros autores, aliás, tiveram experiências semelhantes ou até mais radicais. Todorov, contudo, estabeleceu como critério lidar com escritores que não apenas aspirassem a uma forma de perfeição, mas que tivessem registrado por escrito esse projeto. Confrontar teoria e prática era fundamental para o filósofo.

Na entrevista a seguir, Todorov comenta outros livros seus, como Em Face do Extremo (1995) - que trata da evaporação dos traços morais em situações extremas (como as dos campos de concentração nazistas e dos gulags soviéticos) - para mostrar como um momento de alegria garantido pela literatura ajudou escritores a enfrentar situações dramáticas e até trágicas, caso de Wilde, condenado à prisão por ser homossexual, e de Marina Tsvetaeva, que teve o marido fuzilado e viveu na pobreza na ex-URSS. Rilke foi inicialmente rejeitado na França e só mais tarde recebido como um herói. Tsvetaeva não teve a mesma acolhida. Foi esnobada na capital francesa e não conseguiu publicar seus poemas.

Com todas as catástrofes e tragédias do século, é uma surpresa um livro como A Beleza Salvará o Mundo, considerando os campos de prisioneiros, os massacres e o horror do mundo globalizado. Essa foi a razão que o levou a escolher três escritores do passado para analisar em sua obra? Foi difícil encontrar exemplos no presente desse tipo de beleza que o senhor identifica nos trabalhos de Wilde, Rilke e Tsvetaeva?

A aspiração à beleza, à experiência espiritual, a uma vida digna de ser vivida, não depende das circunstâncias exteriores. É provável mesmo que ela seja ainda mais forte quando a vida que levamos seja pouco satisfatória. Encontramos exemplos assim até nos campos de extermínio. Eugênia Ginzburg (escritora russa morta em 1977 e condenada a 18 anos de prisão em 1937, injustamente acusada de atividades contrarrevolucionárias na ex-URSS) lembrava sempre como a leitura dos poemas de Púchkin tinha o poder de levantar o moral de seus companheiros, no trem que os conduzia a Kolima. Primo Levi descreve os efeitos benéficos que produziam a lembrança de qualquer verso de Dante quando estava em Auschwitz. E não se trata apenas de obras de arte: contemplar uma paisagem, viver um encontro humano pode produzir o mesmo efeito.

Oscar Wilde, um dos escritores analisados em seu livro, costumava dizer que o autor não deveria usar sua biografia para escrever, porque o verdadeiro artista tem o dever de criar um mundo imaginário. Hoje parece acontecer o contrário, porque o que se vê são autores explorando detalhes íntimos de suas vidas em seus livros. Seria essa a razão de se vermos tão poucos exemplos de beleza na literatura contemporânea?

Um escritor pode produzir uma grande obra a partir de qualquer experiência existencial, dependendo do que ele faça com ela. É verdade que a literatura contemporânea, em certos países, favoreça esse lado narcisista, provocando resultados pífios. Mas é possível escapar disso. Pegue, por exemplo, uma peça autobiográfica como Longa Jornada Noite Adentro, de Eugene O"Neill (que, é bem verdade, é de 1940): ainda que explore a vida íntima do dramaturgo, ela atinge uma dimensão universal. Há também inúmeros escritores contemporâneos que não escrevem autobiografias e cujas obras encerram uma grande beleza.

Rilke, como Oscar Wilde, pensava que a busca do absoluto devia se tornar o ideal de todo ser humano, mas sofria de uma espécie de "possessão demoníaca", como certa vez escreveu numa carta à amiga Lou Andreas-Salomé. Em ambos os casos, parece que a beleza estava ligada a uma certa ideia diabólica do mal, considerando, por exemplo, O Retrato de Dorian Gray e a atração de Rilke por Mussolini. É possível que os dois tenham sido atraídos pelo lado perverso e decadente da beleza?

Wilde não ligava necessariamente a beleza ao mal, mas queria que sua busca da beleza estivesse livre de qualquer pressão moral. Sua vida trágica nos mostra que essa separação era mais difícil do que imaginava. Rilke submeteu seus julgamentos morais e políticos às exigências estéticas, o que por vezes lhe causava um enorme sofrimento, conduzindo-o frequentemente a impasses. Não é a natureza da beleza a responsável por esses fracassos, é o lugar que destinam a ela esses criadores em relação a outras dimensões de sua existência.

No começo de seu livro o senhor nos faz lembrar a Revolução Francesa para dizer que as referências ao mundo divino morreram com o advento da filosofia iluminista. Lembro que o senhor escreveu, em Literatura em Perigo, que a literatura se distanciou dos indivíduos com a Revolução. Haveria um meio de pensar a ideia do absoluto em termos individuais na época em que vivemos?

Em meu livro, por meio do exemplo de três grandes artistas de decênios precedentes (1880-1940), falo de uma forma de buscar uma vida bela - forma que produz muito sofrimento, quando não tragédias. A partir disso, comecei a pensar o que poderia ser uma forma alternativa de busca do absoluto e me inspirei particularmente em algumas páginas de O Idiota, de Dostoievski. Essa outra forma consiste em recusar a separação das experiências entre altas e baixas, nobres e banais, poéticas e prosaicas, e nos conduz a buscar o sublime no coração do cotidiano. Nossa época nos incita a situar essa beleza menos nas experiências coletivas (que nos trouxeram muitas frustrações no século 20) e mais nas individuais - e para essas não se torna necessário produzir obras de arte.

Há algo em comum entre esse trio de escritores escolhidos pelo senhor, como o gosto por aventuras amorosas, especialmente nas vidas de Wilde e Tsvetaeva. O senhor acha que esses três autores usaram o conhecimento carnal para chegar ao espiritual ou para transformar essas experiências em literatura?

Não penso que seja possível se envolver numa experiência amorosa e carnal com o projeto de fazer dela a matéria de uma obra literária e, mesmo que alguém o faça, receio que os dois - a experiência e a obra - resultem frustrantes. Meus personagens se envolvem porque o amor que os possui é uma força irresistível.

O aspecto político da vida desses três autores não foi esquecido em seu livro. O senhor cita o manifesto de Wilde em defesa do socialismo, a ilusão de Tsvetaeva com a Revolução Russa e a atração de Rilke pelo fascismo. O senhor diria que a busca da beleza e do absoluto nesses casos estava ligada a uma espécie de messianismo?

Esses artistas, tanto como seus contemporâneos, não escaparam do mundo político em que estavam imersos. Mas não se trata de messianismo: eles não são animados pelo projeto de salvar a humanidade. Eles buscaram sobretudo uma maneira de situar sua experiência pessoal em relação aos eventos transformadores com os quais se confrontavam.

Em seu livro A Defesa do Iluminismo o senhor argumenta que os valores estabelecidos pelos revolucionários franceses de 1789 estão sempre sob ameaça. Quais são os valores morais de Wilde, Rilke e Tsvetaeva que o senhor julga incompatíveis com a ideologia iluminista?

Wilde, Rilke e Tsvetaeva não eram hostis ao Iluminismo, mas o que trouxe esse movimento de ideias não bastou a eles. Eles são filhos do romantismo, mais do que das Luzes. Passaram a valorizar a busca do absoluto, pelo qual o Iluminismo não tinha maior interesse.

Em O Idiota, Dostoievski diz que há apenas um ser no mundo que é absolutamente belo, Cristo, "l"Être suprême", o ser supremo, para o escritor russo. E para o senhor, qual é a suprema beleza do mundo?

Para mim, a beleza absoluta não se encarna nos seres, sejam eles indivíduos ou uma comunidade. Acho que ela só se manifesta em experiências particulares. Por vezes, encontro-a em obras de arte, mas ela também pode estar nas folhas de uma árvore, no riso de uma criança ou no olhar de uma pessoa que amo.

A BELEZA SALVARÁ O MUNDO

Autor: Tzvetan Todorov

Editora: Difel

Tradução: Caio Meira

(352 págs., R$ 45)

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.