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Fábio Porchat
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À procura da irmã da Glaucy

Na semana passada, minha diarista me apareceu pálida dizendo que precisava ir embora mais cedo porque a irmã dela tinha sumido. Quê? Ela saiu do plantão e não voltou pra casa. O telefone só dá caixa postal e ela não responde mensagens. Como uma mulher de quarenta e cinco anos desaparece do mundo? Imediatamente se imaginam desgraças. De todos os tipos e as piores.

FÁBIO PORCHAT, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2013 | 02h08

Eu indaguei se de repente ela não saiu com algum namorado, amigas, afinal era noite de sexta feira. Glaucy me disse que não, que a irmã não tem amigos nem nunca namorou e que a vida dela é o trabalho, a faculdade e ficar em casa. Ela é muito sozinha, nunca sai com ninguém.

Passei a ficar preocupado também, mas não sabia muito como ajudar. Se a pessoa sumiu sem deixar vestígios, por onde começar a procurar? Não queria assustar ninguém, mas pedi pra ela procurar em hospitais. Acho que a polícia não aceita nenhum tipo de denuncia de desaparecida com menos de 24 h, mas... À noite, liguei pra saber se tínhamos novidades e nada.

No dia seguinte, uma da tarde, a irmã dela apareceu pra trabalhar normalmente. Todos estavam desesperados, aos prantos e ela, tranquilíssima, disse que tinha viajado pra Arraial do Cabo com um pessoal. Mandou uma mensagem avisando, só que ninguém recebeu. Engraçado como nós não conhecemos as pessoas. Nem as que estão ao nosso lado todos os dias. Como pode, uma pessoa tão sozinha e sem ninguém, aos olhos da minha diarista, ter passado o final de semana em Arraial do Cabo?

Ela não deu a louca de uma hora pra outra e saiu sozinha, pelo litoral do Rio. Ela não fez uma amizade relâmpago no ponto do ônibus indo pra casa e resolveu ali mesmo mudar seu rumo e curtir a vida. Ela tem amigos sim, ela tem uma vida sim e "ninguém" sabia disso? Que será que acontece? Quando a Glaucy me descreveu a sua irmã, eu fiquei com pena daquela moça que não vivia a vida. Quando a Glaucy me contou o desfecho da história, eu fiquei com pena da Glaucy, que não fazia a menor ideia de quem era a irmã.

Fiquei com pena de mim também que não faço a menor ideia de para onde teriam ido as minhas irmãs se amanhã alguma delas sumisse. Eu não sei se eu sairia gritando por elas em Paris ou Arraial do Cabo. Eu também não conheço minhas irmãs. Penso se elas me conhecem também. Pra onde eu iria, hein, Silvana, Cristiana e Alice? Porque, hoje em dia, desaparecer do mapa não é necessariamente morrer, é simplesmente não atender o celular nem responder e-mail. Às vezes, eu vou dormir quase de manhã, e acordo duas da tarde de uma terça feira. Quando vou checar meu celular, a sensação que tenho é de que já se passaram três dias desde que fui dormir. Ligações, mensagens, recado na caixa postal, e-mails, pessoas desesperadas atrás de mim para resolver um assunto tão urgente que talvez agora não tenha mais solução. Quando retorno uma ligação me perguntam: aonde é que você tava? Morreu? Não, tava ali, dormindo, sonhando com Arraial do Cabo.

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