A princesa, o sapo e a cozinheira

Leah Chase lembra-se de quando os Jackson 5 e o pequenininho Michael - "So cute, tão bonitinho" - frequentavam seu restaurante. "Aonde mais eles poderiam comer durante as turnês?", ela pergunta. Mamma Leah possuía o restaurante de comida típica mais movimentado da Luisiana. Eram os tempos do segregacionismo e brancos e negros não podiam se sentar à mesma mesa, em lugares públicos. A regra valia para todos, até os famosos.

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

17 de março de 2010 | 00h00

Outros artistas de renome sentavam-se às mesas do Dookey Chase, para saborear o gumbo z"herbes, especialidade da casa. Um dos frequentadores assíduos da casa, sempre que estava na Luisiana, era o reverendo Martin Luther King. Naquelas mesas foram montadas estratégias de luta do movimento por direitos humanos nos EUA, nos anos 1960. Já se passaram 50 anos, um negro ocupa a Presidência dos EUA, mas volta e meia o fantasma do racismo ressurge, em ações isoladas que se podem combater legalmente. O restaurante de Mamma Leah segue sendo the best para quem quiser comer "creole". "É só pegar um táxi em New Orleans e dizer ao motorista que quer ir ao Dookey. É fácil achar o caminho."

Mammah Leah conversa pelo telefone com o repórter do Estado. Onde ela está? "Ora, onde! Na cozinha!" e dá uma sonora gargalhada. A velhinha animada vive momentos de euforia, numa existência que teve dificuldades, mas elas ficaram para trás. "O Senhor (the Lord) põe as dificuldades no caminho da gente, para nos testar. O que vem muito fácil a gente não valoriza", avalia. O nome do restaurante, Dookey, vem do marido. Foi a sogra que iniciou Leah nos segredos da "creole cuisine". O restaurante também é referência porque possui uma das maiores coleções de arte afro-americana do mundo. Leah Chase, New Orleans, gumbo z"herbes. Alguém aí já fez a associação? Leah foi o modelo para a construção da primeira princesa negra da Disney, em The Princess Frog, A Princesa e o Sapo. O DVD chegou sábado às lojas e já integra a lista de mais retirados da Agência Estado.

Quando o estúdio a contactou, ela não acreditou. "Why me, por que eu?" Porque a sua vida de esforço merecia ser recompensada e porque a homenagem a Leah homenageia décadas de luta pelo reconhecimento da dignidade dos negros norte-americanos. Sua receita de vida não difere muito da de culinária - "O bom prato se faz com ingredientes simples, mas de boa qualidade. A comida que as pessoas comem no restaurante não é diferente da de casa, mas tem um toque a mais." A cozinha de seu restaurante tem o pé na África. Ela gostaria de visitar Salvador, na Bahia. Está certa de que os baianos cultivam ingredientes, e temperos, que talvez não sejam muito diferentes dos dela. "A cozinha revela a gente. Você pode avaliar uma pessoa pelo que come, e como se comporta à mesa, mas às vezes é injusto. Existe tanto desperdício no mundo, tanta fome ainda." O repórter não se furta a perguntar se Mamma Leah conhece essa outra jóia da animação, Ratatouille, sobre o ratinho que quer ser chef? Ela ri, de novo. "Não, mas o meu neto adora. Ele é que é metido nessas coisas de cozinha francesa..."

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