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Ignácio de Loyola Brandão
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A primeira viagem de avião da corajosa Ivanice

A historiadora e pesquisadora da editora DBA Terezinha Melo e eu conversávamos no aeroporto do Recife, esperando o momento do embarque, quando a mulher morena, tímida, se aproximou:

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO, O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2015 | 02h00

- Posso incomodar? Onde é que a gente pega o avião?

Para onde a senhora vai?

- São Paulo?

Que voo?

- Voo? Não sei. O que vai pra São Paulo.

Curioso, no check-in parece que ninguém ajuda essa nova classe que viaja e zanza desamparada pelo saguão. Pedimos para ver o cartão de embarque, era o mesmo voo que o nosso. “Acompanhe a gente, vamos juntos.”

O olhar dela brilhou. Aliviada, sorriu. Era mulher simples, despachada. Vestida como se fosse para o domingo, cheia de colares, relógio de pulso, fitinhas. Disse se chamar Ivanice.

- Me mandaram ver a placa de embarque, mas não sei ler. Fazer o quê? Primeira vez que viajo de avião, estou com medo.

- É igual a uma viagem de ônibus, disse Terezinha. Só que mais chata. No ônibus a senhora vê a paisagem, aqui só nuvens.

- Deve ser bonito.

Ivanice seguiu entre Terezinha e eu, fomos indicando o que fazer. Achou curioso o raio X da Polícia Federal, pegou sua bolsa, perguntou: E agora? Quando anunciaram a organização para o embarque, formou-se uma imensa fila de prioridade. Idosos, gestantes (como eles dizem), deficientes, crianças. Olhei a fila dos “normais”, mínima. O atendente contou: ontem, em um avião de 200 pessoas, 180 foram prioridades. 

Por uma dessas incríveis coincidências (ou não?), a poltrona de Ivanice era na mesma fila que a nossa, ela na A, junto à janela. Dentro do avião, Ivanice mostrava-se inquieta. Ressabiada, como se dizia em Araraquara, mas se mostrava curiosa com o movimento, as pessoas entrando, guardando bagagem, gente reclamando que alguém tinha batido com a mochila na cabeça dela. Passageiros de avião vão passando e acertando todo mundo com as mochilas nas costas. Vivemos em uma sociedade cada vez mais grosseira. Não entendo por que se atropelam no avião, se cada um tem lugar marcado, não cabe um a mais do que a lotação.

Ouvimos “portas em automático”, o avião taxiou, o comandante avisou: decolagem autorizada, turbinas deram potência máxima, Ivanice nos olhou, subimos. Quando atravessamos as nuvens, ela desandou num choro convulsivo, apoiada no ombro de Terezinha, que tem mais horas de voo que muito comandante. Não adiantava consolo, nada, ainda não era possível chamar a comissária, pedir uma água. Foi quando Ivanice desabafou:

- Estou me lembrando do avião do Luciano ‘Hulk’ que caiu, aquilo não me sai da cabeça, e se o nosso cair?

Aí, a senhora que estava na poltrona da frente virou-se para o companheiro:

- Por que ela foi se lembrar do ‘Hulk’? Me deu medo também!

‘Hulk’, foi assim que ela disse, sei lá se pensando no jogador da seleção. A aeronave, como dizem os tripulantes e os alto-falantes dos aeroportos, subiu tranquila, se acomodou, Ivanice se acalmou, pediu desculpas.

- Sabe? Sou da roça. Sou de Tabocas, estou indo visitar meus filhos. Tenho seis e três deles estão em São Paulo, estes três faz muitos anos que não vejo. Sustentei todos com a roça. Agora, me mandaram passagem, estavam com saudades também. Falei: deixa meninos, vou de ônibus. E eles disseram que não, ônibus leva três dias. Melhor de avião. Estão bem de vida, todos têm emprego. Para quem criou eles dando duro na roça, às vezes com marido, às vezes sem, fico feliz. Quanto dá até São Paulo? Três horas e quinze? Melhor, não? Depois, eu tinha curiosidade. Muita amiga minha já viajou de avião, adorou. 

Na hora pensei: o que esta mulher, pé no chão, que viveu da terra, sentiu ao se ver sobre as nuvens? Sem chão? Perdida no espaço? Os “meninos”, como ela diz, trabalham há anos em São Paulo. Um ou dois trabalham numa padaria.

- Não sei se conhecem, não sei o tamanho da cidade. A padaria é a São Domingos. Sabem qual é? Um filho é padeiro ali há 20 anos.

Ela não tem ideia de que os que não conhecem a padaria São Domingos, no Bexiga, das mais tradicionais da cidade, bom paulistano não é. Ou é ruim da cabeça. Veio o lanche, Ivanice aceitou o guaraná e aquele sanduichinho mixuruca, gelado, que as empresas aéreas oferecem. Mas ela gostou, disse que em Tabocas não tinha um igual. Estava adorando o avião, a viagem.

Olhou pela janela, até dormir. Acordou perto de São Paulo, ficou encantada com o pouso, disse que o piloto devia ser bom, não bateu em nenhum prédio. Conduzimos a corajosa Ivanice às esteiras de bagagens. Ela apanhou sua maleta e uma caixa de isopor (o que terá trazido para os filhos?) e a levamos até a saída. Logo, um filho apareceu, abraçaram-se longamente. 

- Gostei muito. Adoro trabalhar, não tenho medo. Se encontrar alguma coisa, posso até ficar por aqui, disse ela, agradecendo à Terezinha. 

Lembrei de mim, aos 21 anos, caipira desnorteado, descendo na Estação da Luz, atordoado. Nem imaginava que um dia viajaria de avião. Pobres viajavam de segunda classe nos trens. Não havia ainda ônibus.

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