Eric Ward/ Unsplash
Eric Ward/ Unsplash

A primeira vez

Ela tinha olhos esverdeados que brilhavam e o queimaram. O seu coração disparou

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2021 | 03h00

Ele se surpreendeu quando entrou e a viu com roupa de grife, esmaltes bem pintados, a pele bem tratada, o cabelo mais bem penteado do câmpus, numa cadeira escolar rabiscada, lascada, bamba, com chiclete debaixo da tampa. 

Ela tinha olhos esverdeados que brilhavam e o queimaram. O seu coração disparou, pois ela o convidou para se sentar ao lado, com o gesto de tirar a bolsa de cima da carteira vizinha. Era uma aula de francês do Instituto de Linguagem. Alunos da graduação de outros departamentos podiam estudar línguas de graça. Serviam de cobaias para professores recém-formados, experiências didáticas.

Ao sair da classe, se despediram formalmente. No ponto de ônibus, ele fechava os olhos e respirava fundo para sair do estado de encantamento. Nunca uma garota o tinha afetado daquele jeito. 

Sua elegância, aparência, olhar flamejante e a autoconfiança eram um contraste com o ambiente informal daquela universidade pública degradada, tomada por jovens inseguros. Reprisava o convite, ou melhor, a indireta, de o convidar para se sentar ao seu lado, assim que o viu: ela gostou dele, tirou a bolsa da carteira vizinha, indicando é aqui que você tem que ficar. 

Se perguntou o que acabou de acontecer. Via na janela do ônibus o rosto dela refletido, como se estivesse ao lado. Um arrepio involuntário percorreu a espinha. Torceu muito para o tempo acelerar e chegarem as próximas aulas de francês.



Eram calouros, tinham 18 anos e nada em comum. Quer dizer... Ele era de Humanas, morava numa república esculachada e não tinha um tostão. Ela, da Engenharia, e o pai era um grande empreiteiro, nasceu e se criou numa Campinas que ele não conhecia: rica, ainda agrária, mas também tecnológica. 

Campinas já foi do café. Passou a ser da indústria e logística, com o maior centro de carga aérea da América Latina, o Viracopos. Lá, foi inventada a fotografia, por Hercule Florence. De Campinas é Carlos Gomes, o compositor de óperas. Campinas foi maior que São Paulo. Dela, saíam várias ferrovias, e chegava o café. Cresceu demais e desordenadamente. Até ser atacada por uma epidemia mortal de febre amarela. 

Ela falava de tudo isso com tanta veemência, que ele começou a achar a Elétrica um dos ramos mais importante do conhecimento, e Campinas um polo de inovação, cultura e tecnologia. E a empolgação era tamanha, que ele se perguntava como viveu até então sem saber da história de Campinas, que tem uma escola centenária com o belíssimo nome de Colégio Culto à Ciência, em que estudou Santos-Dumont, o poeta Guilherme de Almeida e o jornalista Julio de Mesquita, do Estadão

Um dia, ela o convidou para uma festinha da Engenharia. Foi pegá-lo na sua república caindo aos pedaços, no seu carro zerinho. Ele foi com a roupa que tinha. Ela caprichou. Ao redor, um perfume doce e envolvente.

Entraram na festa. Ela o segurou na mão e puxou. E as mãos não se desgrudaram. Seus dedos, entrelaçados. Como com o dedo na tomada, uma onda de choque circulou por todo o corpo. Se desgrudaram para cumprimentar as pessoas. Queriam que não fosse obrigatório cumprimentar os outros. Beberam.

- No que você está pensando? - ela perguntou. 

- Vamos dançar?

Ele dançava bem para os padrões da estudantada de Exatas. Quer dizer, era uma dança exótica, livre, não matemática, como uma girafa tonta e com um prego na pata.

Deviam achá-lo um menininho drogado, espaçoso, que queria aparecer, como coreografado por Nijinsky, exibindo Stravinski a Paris. Ela fazia os passos que todos faziam, os da moda: os pés parados, mexendo os braços e quadris, balançando cabelos. 

Foram para uma varanda respirar. Tinha vista para a cidade. Ficaram grudadinhos. Até se beijarem pela primeira vez. Daqueles beijos que se dão com amor e tesão, que as bocas não se desgrudam, e cada um tenta abri-la mais, para se oferecer e sentir o gosto do outro.

- Por que estamos aqui? - ela perguntou do nada.

- Para beber, dançar e beijar.

- No planeta. Você pensa no futuro? Nós existimos por alguma razão. Pra salvar o planeta, melhorar a vida das pessoas. E temos pressa. A maioria aqui quer se formar e trabalhar numa grande concessionária, estrangeira de preferência, em parques industriais, fábricas, para construir, erguer e faturar. A gente tem uma missão. Somos privilegiados: nascemos, temos saúde e entramos numa universidade de ponta. Não quero me formar e trabalhar para uma empresa. Penso em fazer algo de útil.

- Eu não sou nada, mas devo ser tudo. Qualquer um que saiba alguma coisa da história, sabe que grandes mudanças sociais são impossíveis sem o fermento feminino.

- Que lindo. Quem disse isso?

- Marx. 

Foram embora sem se despedir de ninguém. Ela estacionou na porta da república dele e subiu no seu colo. Com as pernas bem abertas, o agarrou, beijava, segurava seu pescoço, se esfregava, fechava os olhos, mexia o quadril, ia explodir, quando uma ereção se completou. Ela travou, fulminou seus olhos e disse:

- Sou virgem.

- Eu também.

Ela voltou para o lugar da motorista, arfando, ajeitando-se. Sorriu e disse:

- Não temos pressa.


É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.