A primeira gringa da favela

Minha filha Maria, de 20 anos, topou assistir pela segunda vez na semana passada ao filme Tropa de Elite 2 para que eu pudesse vê-lo pela primeira. Foi um gesto filial carinhoso. Sim, só agora o vi e foi na TV, em um DVD. Mas valeu. Achei-o bom e forte, como um café bem tirado.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2011 | 00h00

É um filme de enredo gostoso de acompanhar, mas de arquitetura complexa, um pouco diferente da maioria das obras policiais. Nestas sabemos, quase sempre, para quem estamos torcendo e muitas vezes quem é o adversário também. O bem e o mal estão definidos de alguma forma. No mínimo, há um crime cuja autoria precisa ser descoberta.

Mas não é o que acontece em Tropa de Elite 2. Neste, não há um crime. São incontáveis. Suspeitamos de toda uma geografia social, do Estado, das polícias, dos maconheiros, da escola, da imprensa, da ex-mulher, até do filho. Daí a necessidade de um professor universitário como personagem de apoio. Nosso herói, Capitão Nascimento, está em uma missão sociológica. O feito mirabolante da obra é ter conjugado a explicação intelectual da violência na favela com a narrativa policial da busca do bem, sem ser chato nunca. É um filme digno dos prêmios, aplausos e bilheteria.

Alguns dias depois de ter assistido ao Tropa 2, com toda aquela violência ainda no sangue, recebi no meu trabalho, em um envelope, um livro. Isso acontece todos os dias. Costumam ser enviados por editoras, assessorias e autores que buscam reconhecimento e divulgação nos veículos da imprensa em que trabalho. Atendo-os na medida do possível, que é pouco, infelizmente. Afinal, são meus colegas.

Mas ao abrir o envelope, descobri que o livro em questão fora enviado como um gesto de amizade e gentileza, apenas. Era um presente. Chegou com um bilhete do meu querido Ruy Lindenberg, criador de publicidade e leitor voraz. Ele gostou da obra e resolveu encomendar outro exemplar para mim na loja virtual da Amazon. Chama-se Favela: Four Decades of Living on the Edge in Rio de Janeiro ("Favela: Quatro Décadas de Vida no Precipício"). Não conhecia o título. Vem a ser a última obra da renomada socióloga Janice Perlman. Americana, ela se tornou famosa nos meios acadêmicos ao viver em favelas do Rio de Janeiro nos anos de 1968 e 1969, fazendo pesquisas para sua dissertação de doutorado, publicada depois em livro com o título O Mito da Marginalidade (Paz e Terra, 1977) - um clássico do brasilianismo, quiçá da sociologia mundial.

Janice Perlman foi a primeira acadêmica a viver em uma favela carioca para fazer pesquisa. Acabou chamando atenção. À época, era a única universitária gringa sem medo de fazer a vida em meio à pobreza carioca. Conta ela, no prefácio do novo livro, que 1968 e 1969 "estão entre os anos mais felizes da minha vida". E continua: "Quando vivi nas favelas (...) senti-me segura e protegida, enquanto todos, da elite aos motoristas de táxi e aos estudantes de esquerda, consideravam esses povoamentos perigosos - o que era ridículo".

Ao retornar em 1999, percebeu uma mudança drástica: "(...) a infraestrutura e pequenas comodidades domésticas haviam melhorado muito. Mas a antiga esperança fora trocada por pavor e incertezas. Os moradores tinham medo de serem mortos em uma troca de tiros entre facções, de seus filhos não voltarem vivos da escola, de uma bala perdida matar as crianças brincando na varanda. Sentiam-se ainda mais marginalizados do que antes (...)"

Em Favela: Four Decades of Living on the Edge in Rio de Janeiro, Perlman retorna mais uma vez, agora em 2008, em busca dos personagens com quem viveu, fez amizade - e entrevistou, 40 anos atrás. Ela quer saber o que aconteceu com eles, com seus filhos e netos. Algumas das favelas em que morou não existem mais. Outras se expandiram e viraram "complexos", como o do Alemão. Poucos dos seus personagens retornaram para suas cidades de origem. Os filhos de alguns se deram bem. Muitos morreram.

Favela é um livro e tanto, de informações abundantes, boas histórias e personagens tratadas com generosidade literária. Se o mito da marginalidade abriu uma janela no mundo das comunidades cariocas, este lhe dá uma dimensão histórica. Deveria ser lido por todos os estudantes e professores do País, pelos policiais, pelos ricos e pelos pobres, e pelos políticos, ao menos quando sair em português.

Perlman não chega a nenhuma conclusão fácil. (E eu até discutiria com ela alguns dos seus pressupostos antropológicos). Mas sua análise é condizente com a de Tropa de Elite 2. Ou seja, a violência resulta de um conluio entre bandidos e autoridades. É sistêmica.

Mas tanto no filme como neste livro há um lugar especial para um futuro sem desespero. O Rio de Janeiro continua lindo.

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