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A primeira grande comédia do ano

Autor de 'O Primeiro Que Disse' fala de amores impossíveis e homossexualismo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2011 | 00h00

Como seu colega turco-alemão, Fatih Akin, o turco-italiano Ferzan Ozpetek tem sido bafejado pelo sucesso, mas, enquanto um colhe seus louros no circuito dos festivais, o outro é queridinho do público. São oito filmes no currículo de Ozpetek, dos quais cinco contam-se entre os maiores sucessos recentes do cinema italiano. Mesmo assim, o êxito de O Primeiro Que Disse (Mine Vaganti) surpreendeu o próprio autor. "Na Itália, ele foi muito, muito bem, mas no exterior virou uma loucura. Nunca um filme meu vendeu para tantos países e alcançou tanto sucesso no estrangeiro. As plateias aplaudem em cena aberta no Japão, na Espanha, nos EUA", conta o diretor, numa entrevista por telefone. Quinta-feira à tarde, dia 30. Ozpetek estava em Istambul. Durante a entrevista, houve uma algazarra. Chegaram o ator Riccardo Scamarcio e sua mulher, Valeria Golino, que foram passar a virada na Turquia, com o diretor. Ele fala do filme que estreou no fim de semana, no Brasil, de cinema e, naturalmente, de homossexualismo.

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É óbvio que seu filme trata de homossexualidade...

Não gosto da palavra. Ou melhor, não gosto da forma como é usada. Em geral, quando se diz de uma pessoa que é homossexual ou, mais comumente, que é gay, viado etc, o contexto é sempre desfavorável. Você nunca diz de um sujeito que é heterossexual, mas, é verdade, diz que é judeu, negro, cego. Vai um pouco de preconceito nisso, mas também, como vou dizer?, há um desejo de catalogar. Como se um cego ou um homossexual não pudessem ser homens completos. A preferência sexual não impede ninguém de ser ético, de ter dignidade.

O que eu ia dizer é que seu filme trata de homossexualidade, mas seus temas são outros - a questão da identidade, a liberdade, as escolhas.

Não gosto de dizer sobre o que é meu filme, ou sobre o que são meus filmes. Eu posso estar querendo direcionar o espectador para determinado ponto, mas ele se projeta no filme e o vê do seu jeito. Mas gostaria, sim, que as pessoas não lançassem o filme num gueto. Para mim, no limite, é um filme sobre amores impossíveis, que, como diz a avó, são os que nos marcam. E ficam.

Qual foi a origem do filme?

Estava em Nova York, lançando um filme. Encontrei um amigo que estava arrasado. Ele havia decidido contar à família que era gay e seu irmão se antecipou. Eu achei graça, e ria. Ele me chamava de "stronzo", de insensível. Confesso que foi somente seis anos depois que me caiu a ficha de que tinha material para um filme.

Esse pai que se preocupa com o que os outros pensam parece o de O Belo Antônio. Lembra-se do filme de Mauro Bolognini baseado no livro de Vitaliano Brancati?

Não foi uma referência, se quer saber. Ou, pelo menos, não foi consciente. O processo criativo é misterioso. Em nenhum momento, quis que o pai da história fosse baseado no meu pai, mas, de repente, com base no roteiro e na própria escolha do ator, nas roupas, nos gestos, dei-me conta de que era ele e terminei lhe dedicando o filme. "Al mio padre..." Não se cresce sem perdão, ou alimentando ressentimentos.

A personagem da garota, que obviamente ama o protagonista, é muito forte. Ela tem consciência de que é um amor impossível, mas o olha com um misto de desejo e tristeza.

Mas Tommaso também olha assim para ela! Provavelmente seria a mulher de quem ele gostaria, se não preferisse os homens. Na praia, ele olha quando ela e Marco, seu namorado, estão na água. Ela retribui o olhar, quando os dois estão à parte, conversando. E a fala da avó é decisiva, quando ela fala dos amores impossíveis.

A chegada dos amigos gays transforma o filme numa comédia rasgada. No Festival do Rio, o público aplaudia em cena aberta.

Tem acontecido muito, em toda parte. Sinto-me pleno. Toquei onde queria. O filme é sobre gente que ficou muito tempo no armário e é sobre gente que tem de ir para o armário, mesmo que seja por um período curto. Não queria que fosse trágico. Queria que fosse divertido, que as pessoas percebessem o ridículo do próprio preconceito. O que me inspira é a realidade. Penso sempre se as coisas estão verdadeiras. Por exemplo, havia lido que um trio de gays foi agredido numa praia. Quase como uma reação, saiu a cena dos amigos dançando dentro da água.

É uma militância muito sutil.

Bravo! Me agrada a ideia. Não faço filmes para plateias gays, seria reducionista. Na Itália, sou considerado um cineasta familiar. As mães e as avós adoram meu cinema. Identificam-se, mesmo quando percebem que eu estou falando sobre coisas que talvez sejam interditas para elas. É o bom do cinema. Ele libera o desejo.

Mais do que isso. Há algo que me encanta em seus filmes. Em Um Amor Quase Perfeito, os personagens tinham tão pouco e, no final, cantavam Gracias a la Vida. Aqui, há uma dança envolvendo vivos e mortos. É, de novo, gracias a la vida.

Não consigo evitar. Mine Vaganti terminava de forma diferente, mas aí, rapidamente, tive a ideia e mudei tudo, no próprio set. Os atores embarcaram na minha viagem. Não se deve ter medo do óbvio, eu não tenho. Há muito de Divórcio à Italiana, de Seduzida e Abandonada, em meu filme.

Quando Mario Monicelli morreu, muita gente no Brasil lembrou a grande comédia italiana - Dino Risi, Luigi Comencini. Mas ninguém lembra de Pietro Germi.

E, no entanto, ele é grande demais. Um dos maiores, para mim.

Sua situação é cômoda no cinema italiano? O sucesso ajuda?

Faço só os filmes que quero, como quero. Os produtores me desejam, os atores também. Riccardo (Scamarcio) não teve o menor problema de fazer um gay para mim. Nem me perguntou como seria o personagem. E, agora, Valeria (Golino) e ele estão aqui conosco, com minha família e meus amigos, para o réveillon. É como se arte e vida fossem a mesma coisa. E são, para min.

O PRIMEIRO QUE DISSE

Nome original: Mine Vaganti. Direção: Ferzan Ozpetek. Gênero: Comédia (Itália/2010, 110 min.). Censura: 14 anos.

QUEM É

FERZAN OZPETEK

DIRETOR E ROTEIRISTA

Nascido em Istambul, em 1959, mudou-se para a Itália em 1976, para estudar cinema. Fez teatro com Julian Beck e estreou na direção com Banho Turco, que provocou sensação na Quinzena dos Realizadores, em 1997

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