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A primeira crônica do ano

O segredo da vida está em como construir um espaço entre a primeira e a última vez

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2017 | 02h00

No velho bar do Soares e no último dia de 2016, encontrei minha turma. Um mal-encarado Mario Batalha repetiu o chavão:

– Interminável...

– A cerveja que ainda não tomamos?

A lourinha gelada, servida pelo sempre bem-humorado Soarezinho, chegou com o resto do grupo.

– Brindemos a mais um ano novo. Que ele não seja campeão absoluto em tudo que um país não precisa: desonestidade, mendacidade, roubalheira e vergonha, começou o Mendonça levantando o copo.

– E o intelectual e cronista, o que nos diz? 

Olharam para mim. Sorvi um largo gole do meu Joãozinho Andarilho e pensei para fora.

– Essas épocas de boas festas me deixam saudoso. Éramos seis irmãos: a vida levou a metade. Gostaria de voltar a acreditar em

Papai Noel, no Brasil, no mundo, no progresso e no futuro. Mas perdi minha inocência.

– Fomos treinados para isso, disse o sociólogo Fuldêncio. A solução estaria em algum lugar do futuro, mas eu vejo que ela está no presente, porque o futuro encolhe a cada dia. O desastre ecológico sintoniza o fim do amanhã e do próprio planeta. Teria falhado a teoria evolucionista?

– Com essa chamada “civilização”, que confunde avanço tecnológico com superioridade moral, sem dúvida, respondi.

– É triste pressentir que o futuro nos escapa e se transforma numa “pós-verdade”. Aliás, moda é inventar novos rótulos para velhas garrafas. “Melhor idade” para velhice, “disfunção erétil” para broxada e “pós-verdade” para mentira e ignorância. Isso que a internet infelizmente também dissemina. Ao contrário do que se dizia, quem muito se comunica se trumbica! Falou o Levy com a segurança dos comentaristas políticos.

Alguns riram e pensaram no Chacrinha. Continuei:

– O futuro era tudo para nós meninos parcialmente educados pelo cinema americano. Um dia, donos de automóveis e namorados daquelas louras de cabelos esvoaçantes, que não tinham pai, mãe ou parentes. Moravam sozinhas...

O ano novo leva ao passado e eu recordei como víamos o nosso futuro nos quadrinhos do Flash Gordon, o herói interplanetário.

– E lutava contra o imperador Ming do planeta Mong... Lembrou meu tio Mário.

– Acho que era o oposto: contra o Mong do planeta Ming!, soltou sorrindo tio Silvio...

– E que mundo imenso era aquele, falou o engenheiro Naninho com a juventude dos seus 82 anos. Lembra, Roberto, o dia em que pegamos um mapa para localizar a tribo de Muviro, o amigo africano de Tarzan? E quando discutimos sobre as cidades perdidas de Castrum Mare e Castrum Sanguinare, que representavam Atenas e Esparta transplantadas para o universo de Edgar Rice Burroughs?

– Tempos de Papai Noel...

– Você vai escrever sobre o quê? Perguntou o professor de línguas mortas Mario Roberto. 

– Não sei. Talvez meu tema seja sobre o começo, pois vai ser a primeira crônica do ano. O inaugurar, o abrir, o começar... Inícios e gêneses, prefácios e prólogos, a primeira letra do alfabeto, sempre são bons para escrever. O tempo dissolve tudo, mas sempre haverá um primeiro banho de mar na Praia das Flechas.

– Eu choro quando a vejo, disse o nosso militar reformado Celso, triste, consolando-se com mais uma cerveja.

– Sem dúvida, vou falar do começo, mas não posso deixar de pensar no fim. Porque um dia ele virá.

– É curioso, continuei. No Ocidente, o futuro sempre foi maior do que o presente. Preocupar-se com o presente – o aqui e agora – era a missão dos revolucionários que rejeitavam um paraíso no outro mundo. Já nas sociedades que tenho estudado – as tais “tribos primitivas” –, passado, presente e futuro são, de um ponto de vista cósmico, uma mesma coisa. Como disse Lévi-Strauss, as sociedades tribais são fiéis a si mesmas. Nós, ao contrário, pensamos em ir para Marte sem termos nos resolvido aqui na Terra.

– Que está sendo destruída, disse o Maurício – o nosso fazendeiro falido pelo o agronegócio.

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