A primeira Copa

Na primeira vez que morei no Brasil percebi a importância do futebol. Compreendia mal o português, mas dava para entender que se falava muito do assunto, e com prazer. Vivi em Dourados, Mato Grosso do Sul, entre 1976 e 1977, como aluno de intercâmbio cultural, onde descobri o Corinthians. Voltei, depois, aos Estados Unidos para fazer faculdade.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2010 | 00h00

No pequeno apartamento que alugava na cidade universitária de Berkeley, próxima a São Francisco, na Califórnia, havia na parede um pôster do Timão (da revista Placar). Isso já no comecinho da década de 80. Lembro-me até hoje ? e lá se vão algumas décadas ? de um colega, americano também, que entrou no meu quarto e ficou fascinado com a mistura racial dos jogadores daquela equipe. Ele comentou sobre os tons diferentes de pele, as características faciais, as etnias, o cabelo do Biro-Biro. Nunca havia visto nada parecido. E o amigo, diga-se, era especialista em história da África.

Mudei-me para São Paulo, depois. Passei a estudar a história do esporte. Torci muito. Eu esperava demais da seleção: a confirmação de que a minha decisão de viver no Brasil fora acertada. Freud explica. Mas não me acho diferente nisso. Cada brasileiro cobra algo pessoal da seleção. Ela traduz a ideia de nação para o torcedor.

Minha primeira Copa foi a de 1982, aos 24 anos. A beleza e a arte perderam. Ficou um vazio existencial depois. Daqueles. Mas eu me senti mais brasileiro por ter passado por uma derrota tão arrasadora com o restante do País.

Estava no estádio quando o Brasil derrotou a Itália nos pênaltis e tornou-se campeão depois de 24 anos, em 1994. A emoção foi forte também. Sentava eu nas numeradas dos bacanas, próximo a Pelé, em Pasadena, na Califórnia. Ao meu lado, o escritor Mario Prata passava mal, já a partir da prorrogação. Nos pênaltis, achei que ele iria desmaiar. Estava branco feito fantasma. Voltaria à Copa em 1998, na França, enviado mais uma vez por este jornal, onde vi a final ao lado do filho do Prata, Antonio, que hoje escreve no Estadão também. Passamos boa parte daquela fatídica partida de mãos dadas. Nosso gesto não adiantou, como se sabe.

Com o passar do tempo, ficou cada vez mais claro para mim como as Copas do Mundo pontuam a vida dos brasileiros. O tempo histórico é medido pelas Copas. Pode-se (e deve) falar da época de Vargas, da ditadura militar, da era FHC ou Lula. Mas desconfio que a maioria dos brasileiros analisa mesmo a história em termos de futebol, pelo menos de 1950 para cá.

Cada Copa tem seu significado pessoal e, também, nacional. É possível lembrar onde se estava e o que acontecia em1970, 74, 78, 82, 86, 90 (menos), 94, 98, 2002 e 2006. Cada time gera uma série de expectativas que são realizadas, ou não. Os de 1982 e 2006 talvez tenham sido os mais trágicos. Prometeram uma realização utópica de todo o potencial criativo do Brasil, de tudo que o país tem de especial, mas sem conseguir vencer, frustraram as esperanças mais íntimas do povo.

No seu ensaio genial sobre a história do futebol no Brasil, Veneno Remédio (Companhia das Letras), José Miguel Wisnik analisa a "variação ciclotímica, entranhadamente brasileira" da torcida. "Ela funciona" ? escreve ? "por uma oscilação polarizada entre veneno ou remédio..."

Em termos nacionais, a seleção da "Era Dunga" empolgou menos porque prometeu menos: ganhar, nada mais. Foi antiutópica. Realista. É a reação ciclotímica e pé no chão ao time do decepcionante "quadrado mágico" de 2006.

Em termos pessoais, esta será para mim a Copa do meu pai e do meu filho caçula, Sammy. Consegui que o velho Garry, de 75 anos, virasse fã do futebol lá na Califórnia, depois de décadas. Ele nunca conseguira entender a graça do futebol, apesar da minha insistência ao longo dos anos. Deu certo. Ele acorda às 6 da manhã para assistir aos jogos da Copa. Consulta a tabela. Boa parte do crédito, desconfio, cabe à vitória da seleção americana sobre a Argélia nos últimos minutos do jogo, que garantiu a passagem dos EUA para as oitavas de final. Disse-me, pelo telefone, que poucas vezes na sua vida viu um jogo ? em qualquer modalidade de esporte ? tão emocionante. Entendeu, enfim. O fato de o desfecho ser puramente hollywoodiano não prejudicou em nada esse entendimento, diga-se de passagem.

Para o caçula Sammy, de 7 anos, esta é sua primeira Copa. Completou o álbum. Nunca vai esquecer. Entre os amigos, não se fala em outra coisa. Pena que o Brasil tenha sido eliminado. Ao menos foi por um time que joga bonito. Sua segunda Copa vai ser jogada em casa. Será memorável.

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