Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A primavera troglodita

O aristocrata deveria ser educado sem nunca trazer à tona os andaimes, o esforço, o suor que custou o gesto ou a fala.

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 03h00

O corpo precisa ser domesticado e curvado às regras de civilidade. A Idade Moderna trouxe esse imperativo para as rodas aristocráticas. O livro O Cortesão (de B. Castiglione), os grandes manuais de etiqueta, as normas sobre comportamento à mesa, o uso do lenço, a conversação agradável: tudo chega ao máximo com o ordenamento que terá por centro o palácio de Versalhes e o rei Luís 14. Terminado o Antigo Regime, a burguesia assumiu a demanda pela polidez necessária que a tornaria distinta da massa. Surgem escolas de boas maneiras e novos manuais sobre receber.

O homem do século 21 é um paradoxo. As normas da etiqueta existem e foram atomizadas. A civilidade continua sendo um esforço de mães, pais e professores. Porém, há algo de podre no reino da Dinamarca. O troglodita está na moda. Usando um neologismo de sonoridade explosiva, a “tosquice” é trending topic. Dizer o que se pensa de forma grosseira, emitir piadas sobre o baixo corporal, assumir preconceitos: tudo parece representar a derrota do esforço de meio milênio na domesticação do selvagem social. Haveria explicações?

Vou lançar hipóteses para o debate. A raiz da contestação pode estar no próprio processo de civilidade. Produzir o homem aceitável da corte, o cavalheiro perfeito, a dama refinada, os gestos e procedimentos adequados implicou repressão e uniformização. Repressão de sons corporais, contenção de impulsos violentos e defesa de modos padronizados. A aristocracia desenvolveu a arte da etiqueta. A burguesia a imitou longamente, com o embaçamento natural de todo espelho imperfeito. Depois de séculos de produção/imitação, existe uma vontade de naturalidade, de libertação de amarras, de combate a cânones. É visível a rebeldia. Muitos duques e baronesas alcançaram a cobiçada sprezzatura, o refinamento demonstrado sem afetação ou sinal de esforço. Os êmulos das classes médias estavam um pouco distantes, porém atentos.

O aristocrata deveria ser educado sem nunca trazer à tona os andaimes, o esforço, o suor que custou o gesto ou a fala. Metaforicamente, sprezzatura é erguer o peso na academia sem gritar. Nem todos conseguem. O preço sempre foi a afetação, ironizada desde Molière até a série Anne with an E na Netflix. No drama sobre o Canadá do fim do século 19, uma pretensiosa senhora exige que suas filhas, candidatas a damas, andem com livros sobre a cabeça. Na televisão é clara a crítica: os gestos são ridículos, produzem gente infeliz e caricata, eliminam a alegria e traduzem apenas um falso fidalgo, como o Monsieur Jourdain da peça que tanta graça provocava na corte do Rei-Sol. Ser adepto do teatro da etiqueta seria, no mínimo, hipocrisia. Libertar-se das normas? Pura liberdade! Aqui começa o derretimento das geleiras das convenções e floresce a primavera do troglodita.

Há outros fatores. Políticos foram retratados universalmente como mentirosos. Diriam apenas o que agrada ao eleitor, esconderiam suas intenções, sorririam quando desejassem bater e elogiariam quando seu eu interno adoraria insultar. Alguns políticos de esquerda e de direita passaram a utilizar recurso oposto. Querendo marcar uma nova fase, trouxeram ao público o falar direto, muitas vezes grosseiro e sem nenhuma concessão ao que consideram politicamente correto. Pode ser um democrata como o presidente L. Johnson dos EUA (governou de 1963 a 1969). Querendo superar o sorriso permanente e aristocrático do seu antecessor e aliado, emitia opiniões que fariam corar estivadores experimentados. Era o texano sulista, o americano médio sem os salamaleques dos milionários Kennedys. Antes do presidente dos EUA, Stalin e seus bolcheviques já tinham se notabilizado pela recusa de um código da nobreza czarista. O georgiano se orgulhava de ser direto, usar termos chulos e ser pouco afeito ao mundo da corte.

O novo populismo de direita tornou quase ordinária a grosseria e fez dela um apelo ao homem comum, desconfiado dos bons modos tradicionais. É o caso de Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Putin na Rússia, Duterte nas Filipinas e Orbán na Hungria (lista bem incompleta). O discurso direto, a recusa do cerimonialismo do cargo, atitudes grosseiras e vulgaridade declarada quando descrevem a oposição e a imprensa: são sintomas de uma nova primavera do troglodita. No Brasil já foi dito que é o “tiozão do churrasco”, o convidado de meia-idade, preconceituoso, de inteligência mediana e que não consegue evitar a piada infame quando é servido o pavê ou quando um rapaz da família chega à idade de 24 anos. É mais forte do que tudo e ele solta o petardo idiota e agressivo. Quero enfatizar que, apesar de ser difundida entre populistas ditos conservadores, a grosseria é ambidestra. Identifiquei Stalin. Lembro-me de piada infame de Lula em Pelotas ou de referência do ex-presidente a uma parte da genitália feminina que ele indagava se não haveria mulheres no partido que a apresentassem de forma muito sólida. É o troféu tiozão grau platinum. Collor bradou ter “aquilo roxo”. Quero reforçar: a primavera tosca brilha sobre a destra e a sinistra...

Identifiquei que a liberdade de expressão passou a ser entendida como sinal verde para agressão (primeira origem). Depois, levantei a ideia de que o combate a elites tradicionais e refinadas com a busca de identidade com um suposto “homem comum” tenha surgido como arma política em muitos políticos de esquerda e de direita. Eis duas curtas hipóteses. Voltarei ao tema. Lembro para encerrar: o oposto à grosseria não é a mentira, mas é o cuidado em não universalizar seus próprios limites e preconceitos. Boa semana de quase outono.

Tudo o que sabemos sobre:
Hungria [Europa]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.