A presença do pintor que revive os clássicos

Uma avalanche de eventos marca os 30 anos da arte de Paulo Pasta

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h22

Os 30 anos de carreira do pintor paulista Paulo Pasta, graduado na Escola de Comunicações e Artes da USP em 1983, são comemorados com uma avalanche de eventos - um debate, hoje, no Vira Cultura, com a poeta, artista e escritora Laura Erber, uma grande mostra com curadoria do crítico Tadeu Chiarelli, na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, um luxuoso livro assinado pelo crítico Roberto Conduru, lançado pela Barléu Edições e, finalmente, um ensaio visual com suas paisagens, encartado no mais recente número (14) da revista Serrote, do Instituto Moreira Salles, cuja capa traz também uma ilustração sua. O debate de hoje, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, terá, inclusive, a mediação do editor da revista, Paulo Roberto Pires.

A exposição A Pintura é que é Isto, na Fundação Iberê Camargo, tem 25 pinturas de dimensões variadas, além de 9 desenhos recentes do artista. O curador Tadeu Chiarelli, diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC), de São Paulo, selecionou telas de tonalidade rebaixada, contrastantes com as cores quentes do início de carreira de Pasta, marcado por uma pesquisa quase arqueológica dentro da tela, da qual surgiam ânforas, ogivas, colunas e frontões das densas camadas de tinta sobrepostas.

Já o ensaio visual encartado na revista quadrimestral Serrote retoma - em outra dimensão, mais complexa - a sintaxe figurativa que caracterizou o primeiro momento da carreira de Pasta. Ele fez muitas paisagens quando começou a pintar, em Ariranha, sua cidade natal. Foi a pintura que lhe ensinou a ver a paisagem, e não o contrário, observa o artista. "Mesmo agora, o que mais importa não é propriamente o registro do que vejo, mas a vontade de adensar essa relação entre a pintura e as coisas."

As paisagens desse ensaio nasceram, por exemplo, das lembranças de Corot e do protoimpressionista Daubigny, dois dos pintores admirados por Van Gogh, cuja recente biografia de Steven Naifeh e Gregory White (Van Gogh: A Vida, publicado pela Companhia das Letras) serviu de estímulo a Pasta para produzir a série, que recorre também a fotografias feitas por ele, tempos atrás, na região dos canaviais de sua terra. Essas paisagens não dialogam por acaso com o céu da Holanda ou da França. Foi com os mestres europeus que Pasta aprendeu a pintar, observando os pintores de Barbizon admirados por Van Gogh, os franceses (especialmente Cézanne), os metafísicos italianos (Morandi, em particular) e o brasileiro de origem italiana Alfredo Volpi. "É a pintura que proporciona para mim essa união entre o ontem e o hoje, o desejo e o real", escreve o pintor na Serrote.

O crítico Roberto Conduru, em seu livro sobre o artista (intitulado Paulo Pasta), destaca justamente esse diálogo com a produção da pintura "pretérita" como um caminho escolhido por Pasta para incorporar a história da pintura no Ocidente dentro do próprio trabalho, cruzando-a com a experiência pessoal do artista - e as paisagens da Serrote remetem não ao modelo real de Ariranha, mas a um cruzamento híbrido entre a construção morfológica do pintor e a memória difusa das pinturas da escola realista de Barbizon.

Nessas paisagens, como já observou o crítico Lorenzo Mammì, "a cor derivada da natureza dialoga com a cor proveniente da história da pintura". Isso vale também para as pinturas não figurativas expostas na Fundação Iberê Camargo. As variações cromáticas das telas maiores obedecem a uma lógica renascentista, em que cor e luz são indissociáveis - e a prova incontestável é a série de pinturas que elege o rosa do anjo da Anunciação de Fra Angelico como referência.

Outro aspecto importante da mostra na fundação que leva o nome de Iberê Camargo - professor de Pasta - é o trânsito livre entre desenho e pintura. Os nove desenhos expostos em Porto Alegre não são exemplos autônomos de uma técnica muito diferente da última. Há uma simbiose entre as duas técnicas, pois são as zonas de cor a causa determinadora da obra, e não o traço racional que normalmente caracteriza a arte do desenho em contraposição à vocação sensual da pintura.

A distância entre o quadro e o conceito é o tema, aliás, do debate que Pasta participa no Vira Cultura com Laura Erber. Não é demais lembrar que o pintor formou-se há 30 anos, época em que a pintura andava reprimida por força de uma histérica ditadura conceitual, finalmente derrubada com a emergência dos novos selvagens alemães e a consagração dos pintores neoexpressionistas. Embora Pasta nunca tenha aderido à pintura matérica, ele é contemporâneo dos artistas da Geração 80.

O aspecto fundamental de sua pintura é, segundo Roberto Conduru, o avanço lento, mas seguro, de sua arte. "Ao longo de mais de trinta anos, sua obra vem se transformando pouco a pouco, com experimentações paulatinas, obra depois de obra, série após série", escreve o crítico em seu livro sobre o artista. Paulo Pasta, enfim, escolhe as cores como Manuel Bandeira escolhia as palavras: com parcimônia flaubertiana, seguro de que criar equilíbrio num mundo hostil à harmonia exige paciência. E senso poético, principalmente.

Serrote

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