Joerg Cartensen/Efe
Joerg Cartensen/Efe

A premiada voz de Shakespeare

Urso de Ouro para filme dos irmãos Taviani, sobre presos que interpretam peça do bardo

Luiz Carlos Merten, BERLIM,

20 de fevereiro de 2012 | 03h06

OK, nenhuma premiação é perfeita, até porque o cinema não é uma ciência exata. Cada espectador, por mais crítico que seja, projeta seus gostos, preconceitos, sua sensibilidade. O presidente do júri da Berlinale de 2012, o diretor inglês Mike Leigh, anunciou, no início da cerimônia, que seus colegas e ele haviam chegado a soluções interessantes, que ele esperava que nós, o público, aprovássemos. E não é que Mike Leigh fez a coisa certa? O Urso de Ouro atribuído a Cesare Deve Morire, dos irmãos Taviani, foi um acerto notável e o júri não se esqueceu de dois belíssimos filmes, dando ao húngaro Just the Wind, de Bence Fliegauf, seu grande prêmio e o Urso de Prata de melhor atriz a Rachel Mwanza, do igualmente admirável War Witch, do canadense Kim Nguyen.

O júri tentou até contemporizar com o deslumbrante Tabu, dando ao filme português/brasileiro de Miguel Gomes o Prêmio Alfred-Bauer, que contempla um filme particularmente inovador. Arrogante, ou irônico, o cineasta de Portugal, que também é, ou era, crítico - e no dia anterior vencera o prêmio da Fipresci, Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica -, declarou-se confuso. "Estou sendo premiado como inovador, mas tudo o que queria era fazer um filme clássico." Tabu divide-se em duas partes e a segunda, Paraíso, que se passa na África, foi filmada em película, em preto e branco, e não tem diálogos mais ou menos como O Artista, de Michel Hazanavicius.

Houve equívocos na premiação, como atribuir dois prêmios - roteiro e ator, Mikkel Boe Folsgaard - ao dinamarquês A Royal Affair, de Nikolaj Arcel. O filme não merece nenhum dos dois, mas não chega a ser calamitoso. O Urso de direção, para o alemão Christian Petzold, destacou o melhor filme da boa seleção da Alemanha, Barbara, sobre uma médica numa cidade do interior da parte do país dominada pelos comunistas, nos anos 1980. Como sempre, a seleção de Berlim, que privilegia o social e o político, foi amplamente discutida. A média dos filmes foi boa, houve alguns muito bons, mas nada - exceto, talvez, o italiano, o português e o húngaro - verdadeiramente excepcional. De qualquer maneira, valeu a pena ter atravessado dez dias de frio e neve, e acaloradas discussões. O próprio diretor-geral do evento, Dieter Kosslick, disse no palco do Palast que o que ia ficar para ele, desta Berlinale, foi o compromisso com a realidade, que colocou nas telas de Berlim, em filmes de diferentes seções, os eventos que transformaram o mundo árabe no último ano. Essa vitória da democracia é algo que, se espera, tenha vindo para ficar, acrescentou - e a arte captou isso.

Foi o teor da coletiva dos vencedores. O português João Salaviza, vencedor do Urso de Ouro do curta, com Rafa, dedicou seu prêmio ao governo português, na expectativa de que, apesar da crise econômica, ele venha a se interessar pelo cinema. Portugal simplesmente extinguiu seu Ministério da Cultura e a produção, que já não tinha mercado, agora não tem nem fundos. O húngaro Fliegauf criticou a TV de seu país, que não quis colocar um centavo no filme sobre a chacina de ciganos, mas que agora, com certeza, iria correr atrás dele para celebrar sua vitória em Berlim. Os Taviani foram emocionantes. Seu filme, documentado mas não documentário, é sobre a arte que muda a vida dos presos de uma cadeia de segurança máxima em Roma. Cesare Deve Morire é inovador - inova as relações entre teatro e cinema, como Tio Vânia em Nova York, de Louis Malle, anos atrás. Os irmãos Paolo e Vittorio deram sua lição de política e humanidade. Nenhum homem é um caso perdido. Seu filme é a prova disso.

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