A praça não é nossa

O aumento de grupos racistas e neonazistas é produto da rede social. Isso é um fato.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2017 | 02h00

Qual a diferença entre 100 pessoas e 20 mil pessoas em manifestações? A resposta parece óbvia, mas, no século 21, não explica tudo. A marcha pela “liberdade de expressão” em nome da supremacia branca reuniu 100 gatos pingados em Boston, apequenados pelos 20 mil que apareceram para denunciar a barbárie.

O atentado terrorista de Charlottesville colocou o Vale do Silício numa berlinda que os executivos gostariam de evitar, mas que não deve ser ignorada. Os oráculos do Vale começaram marquetando sua pureza, como no aposentado slogan do Google, “Não seja malvado”. Mas, até o horror de Charlottesville, o antigo e popular website nazista The Daily Stormer era tranquilamente hospedado pelo serviço de domínios de Internet GoDaddy. Em 24 horas, foi despejado e correu para o Google, que não esperou pelos protestos e defenestrou o Daily Stormer em horas. 

Mark Zuckerberg, cuja plataforma de 2 bilhões de membros com suas ferramentas de marketing foi instrumental para colocar o atual ocupante da Casa Branca, reapareceu usando o conhecido tom de santimônia. Depois de Charlottesville, diante dos planos de novas manifestações neonazistas, Zuckerberg prometeu que o Facebook vai “monitorar a situação de perto” e tirar do site ameaças físicas. O que o CEO de camiseta não disse é que a assustadora tenra idade dos que marcharam em Charlottesville é um fenômeno da rede social. Há 15 anos, associávamos membros da Ku Klux Klan a homens mais velhos no Sul. O aumento de grupos racistas e neonazistas é produto da rede social. Isso é um fato, não um julgamento moral. Discutir se a rede é boa ou má é enxugar gelo. Mas não é possível lidar com o presente sem recorrer à imaginação para enfrentar este fato.

O Vale do Silício deve ser cobrado em sua demagogia. Depois de dizer que seria “arrogância” reivindicar crédito pela Primavera árabe, em 2011, Zuckerberg soou messiânico numa carta aos investidores, pouco antes da oferta pública de ações que o tornou bilionário, em 2012. Disse que o Facebook deu um poder histórico ao povo de compartilhar e previu que governantes vão se aperfeiçoar graças à democracia de curtições digitais.

Zuckerberg acertou no potencial histórico de seu website planetário, mas não na previsão beatífica. Ferramentas do Facebook foram usadas pela operação digital da campanha presidencial republicana para muito mais do que espalhar mentiras sobre Hillary Clinton, a comunista que come criancinhas. Foram usadas para convencer possíveis eleitores da candidata democrata a ficar longe das urnas. Essa foi apenas uma das táticas digitais orwellianas reveladas por jornalistas investigativos.

Volto a lembrar que a invenção da imprensa, no século 15, foi inicialmente usada para promover sectarismo religioso. A chegada dos celulares na África foi saudada como inteiramente positiva, especialmente pelo potencial de promover crescimento econômico. O que não previram é que o celular se tornou também um instrumento de coordenação e aumento de conflitos guerrilheiros africanos.

Na praça do povo em Boston, prevaleceu o clichê do triunfo da civilização sobre a barbárie. Mas a praça que nos trouxe à distopia deste momento não é mais pública. É controlada pelo Facebook, pelo Twitter e pelo Google. A praça pública com fins lucrativos que hospeda nazistas, capacita e multiplica exponencialmente o terrorismo de qualquer persuasão é a nossa realidade. Não é à toa que os radicais racistas em Boston definiram sua marcha patética como defesa da liberdade de expressão. Desafiam não só o Vale do Silício como o resto da sociedade a examinar a convivência em democracias tão rapidamente transformadas pela praça digital privada.

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