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A possessão demoníaca e a do capital

Quem rasga dinheiro talvez seja sábio. O resto, diria um louco sábio, é silêncio

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2017 | 03h00

Familiar aos historiadores em geral, o convento em Loudun, França, é quase desconhecido do grande público. A pequena cidade fora palco das devastadoras guerras religiosas entre católicos e protestantes, além de ter enfrentado um mortífero surto de peste. Em 1632, quando as coisas pareciam retornar a alguma normalidade, um grupo de irmãs ursulinas começou a apresentar estranhos comportamentos. Visões, gritos, ataques de histeria sem causa aparente, blasfêmias e outros fatos estranhos rondavam aquelas antes piedosas paredes conventuais. A madre Joana dos Anjos (Jeanne des Anges) estava no epicentro dos fatos bizarros.

Uma investigação foi iniciada e descobertas surpreendentes emergiram. O pároco da igreja local, um jesuíta chamado Urbain Grandier, foi apontado como um servo do demônio. Em documento assinado com sangue, teria imposto um pacto diabólico a toda a comunidade de religiosas em troca de favores sexuais e poder.

A possessão coletiva tornou-se famosa. Muita gente queria ver as atormentadas que, em espetáculos quase teatrais, repetiam suas danças frenéticas e falas ofensivas a eminências da corte. A notoriedade do convento produzia uma obsessão. Grandier acabou encontrando a fogueira, madre Joana foi exorcizada durante dois anos por outro jesuíta, Jean-Joseph Surin. 

Zênite da crença em bruxarias e pactos demoníacos, o episódio de Loudun, segundo alguns especialistas, marcaria o início do declínio da crença. Loudun foi o momento mais expressivo do poder de Lúcifer sobre os demônios. A idade contemporânea deslocaria o mal das profundezas ínferas para os gabinetes políticos. Satanás enfrentou mal a concorrência com a criatividade destrutiva dos humanos.

O sabá diabólico foi substituído pelos comícios nazistas e o vermelho infernal, pelo estatal de Stalin. Nosso mundo não precisa mais de demônios. 

Por que a possessão saiu das zonas centrais dos saberes reconhecidos e passou para as periféricas? Ainda existem exorcismos e muita gente crê nas legiões do mal com fervor. Porém, nenhum psiquiatra ou filósofo pode invocar Belzebu como origem de um mal sem risco de perder a credibilidade. 

Hoje, se um grupo de freiras começasse a gritar coletivamente, chamaríamos a polícia e invocaríamos a lei do silêncio. Persistindo os sintomas, surgiriam medicamentos psiquiátricos e, não se resolvendo nada, a internação seria o caminho. Michel de Foucault analisou a maneira de substituir os saberes e práticas religiosas por médicas. Desaparece o exorcista e emerge o terapeuta. Some o sodomita e inventa-se o homossexual no século 19. A possuída de Loudun dá lugar à histérica do Dr. Charcot. Os discursos médicos tendem a substituir a autoridade religiosa. 

Apesar de ser loucura, revela método, assegura Polônio ao ouvir o devaneio do príncipe Hamlet. Penso na frase ao relembrar um colega professor que manifestava comportamentos, digamos, atípicos. Os atos foram ganhando intensidade e se tornaram o centro de atenção dos comentários. Houve um debate: estaria demente mesmo ou seria, à maneira do dinamarquês citado, um encenador de roteiros delirantes para obter vantagens? Uma colega lançou veredicto preciso: ele já foi visto rasgando dinheiro no pátio? Alguém foi testemunha de que o professor pegava notas de cem reais e as picava ao vento? Não, nunca tinha sido testemunhado tal ato. Logo, concluiu a dona da ideia, ele não é louco! Aparentemente, o respeito ao meio circulante é o último patamar para decidir se somos ou não perturbados mentais. O azul da nota de cem é o limite cromático da sanidade. As garoupas intactas no desejado papel impresso garantem: você ainda é um ser saudável. 

Ficou fácil, querida leitora e estimado leitor. Quer saber se você é um possuído ou uma histérica como as ursulinas de Loudun? Deseja investigar se habita a exígua ilha da sanidade que o Dr. Bacamarte identificou n’O Alienista? Basta tomar a nota de cem reais em mãos. Se preferir um certificado internacional de qualidade para o teste, pegue uma de cem euros. Tente destruí-la, rasgá-la por completo. Não conseguiu? Parabéns: você é uma pessoa normal. Seus tiques, trejeitos, transtornos e toques fazem parte apenas da idiossincrasia que nos acomete. Continue a reflexão: ali está o dinheiro pelo qual você acorda cedo e quase se mata diariamente. Ali, o papel pelo qual sua saúde se esvai. Diante de você o eixo impresso de toda sua vida. Ele é suadamente obtido, zelosamente guardado e sofridamente entregue. Dinheiro é um registro de tempo, já que para consegui-lo você vai entregando sua vida na ampulheta biográfica destinada ao esvaziamento de toda areia. E, ao final de tudo, aquele objeto de sanidade que você não conseguiu rasgar porque você é normal vai consumir tudo, envenenar relações com sócios, criar humilhações consentidas, matar pessoas num assalto, corromper almas de corruptos e até figurar em caixas em um apartamento soteropolitano. Por fim, servirá como uma cenoura de papel a sua frente até o último suspiro, que só será tranquilo se o mesmo dinheiro for suficiente para seu plano de saúde e excedente para que a família só sinta a dor da sua partida sem o ônus do déficit. Haveria exorcismo para esse padrão de normalidade? Afinal, quem não rasga dinheiro é normal. Quem rasga talvez seja sábio. O resto, diria um louco sábio, é silêncio. Bom domingo a todos vocês.

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